Trabalhando em linguagem referencial sobre temas referenciais, João Cabral de Melo Neto pôs a poesia ao alcance de todos, a começar pelos estudantes de letras e seus professores, que o tomaram para objeto privilegiado de dissertações. São igualmente incontáveis os críticos que nele encontraram assunto para paráfrases analíticas, aliás laudatórias, mesmo à custa de epigramas involuntários: um deles (Antônio Carlos Secchin) afirmou que a sua era a "poesia do menos"; outro (Sérgio Buarque de Holanda) notou que "quase toda a obra deste poeta traz a marca do incessante esforço", enquanto José Castello apresenta-o como "o homem sem alma" (João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma: Diário de tudo. Rio: Bertrand Brasil, 2006).
Era o "poeta das construções cerebrais", no que lembra Francis Ponge (que José Castello não menciona entre as afinidades possíveis de João Cabral), que, por coincidência, publicou Le parti pris des choses em 1942, o mesmo ano de Pedra do sono, o que, de qualquer maneira, o situou numa família espiritual pouco numerosa em nossa literatura: Ivan Junqueira observa que não deixou "sucessores de que derivasse o seu "antilirismo e secura de dicção". Em suma, e como ele próprio afirmou repetidas vezes, foi um corpo estranho nas letras brasileiras.
Poeta fácil de compreender porque deve ser compreendido num exercício de inteligência, sem exigências nem pressupostos metafísicos, isto é, para o que está para além do físico, ele mesmo situando-se fora das tradições literárias (que abominava) e, mesmo, da poesia como forma de literatura e veículo de emoções. Ele escrevia "para ocultar um impasse", afirma José Castello, impasse em que se meteu por querer escrever poesia sem realmente acreditar nela (W.M. "Paradoxos cabralinos". Pontos de vista 14, 2002). José Castello é uma exceção notável na imensa bibliografia repetitiva que se acumulou sobre a poesia cabralina, sendo, talvez, o primeiro, se não o único, a traçar-lhe a história intelectual, sem traduzir em prosa parafrástica o que ele compusera em versos.
Ao estrear obscuramente, em 1942, com Pedra do sono, houve quem o identificasse como surrealista, novidade sensacional, embora temporã, na literatura brasileira daquele momento. Mas, observa José Castello, "a influência surrealista, muito forte a princípio, logo cede lugar à tendência mais definitiva para o cubismo". Digamos, de passagem, que estabelecer diferenças substanciais ente o cubismo (que datava dos começos do século abortado pela guerra de 1914) e o surrealismo, fenômeno da década de 1920, é, por um lado, como lá dizem os franceses, cortar fios de cabelo em quatro (no sentido do comprimento) e, por outro, apontar para, justamente, o traço orgânico do poeta visual que ele é, por isso mesmo atraído pela pintura, em contraposição ao que o surrealismo tem de "literário" e "escrito": "Eu fui um falso surrealista". Nas palavras de José Castello, Cabral "não deseja mais ser um habitante do sonho, isto é, do supra-real, que não compartilha mais a paixão pela escrita automática e recomendada por André Breton e seus companheiros que, agora, os abandona". A pedra do "sono" não tinha, nem jamais terá, qualquer relação com a pedra do "sonho" da visão surrealista.
Por natureza e temperamento, Cabral é o oposto do emocionalismo espontâneo dos surrealistas: "A herança do surrealismo logo será não apenas superada, mas também negada. Se houver hoje, alguma marca, alguma pequena lembrança do surrealismo na minha obra, é porque eu a usei conscientemente, não automaticamente". Na verdade, os primeiros críticos de Pedra do sono viram aparências surrealistas onde havia outra coisa, conforme observa José Castello: Toda a fase desse primeiro livro está dominada por uma confluência imprecisa do surrealismo com o simbolismo francês: uma grande valorização do sono, do mórbido, do mistério e uma certa paixão pela melancolia. [...] Seu segundo livro, O engenheiro, é um volume partido ao meio: começa com poemas dessa primeira fase obscura e a partir de A bailarina, o terceiro poema, dá uma guinada súbita rumo ao concreto".
Ao concreto... mas, era, e foi daí por diante, o concreto figurativo, não o concreto tipográfico proposto pela escola de 1956 como novidade absoluta, aliás mais antiga do que desejavam fazer crer os seus manifestos e manifestações (W. M. "Vinte e cinco séculos de Concretismo". Pontos de vista 11, 1995). De qualquer maneira, em teoria e lógica, tudo devia fazê-los reconhecer como consangüíneos, seja por pertencerem à mesma geração seja pelo repúdio ao Modernismo de 1922 e pela recusa do verso tradicional, sobrevivência arcaica, dizia-se então, que cumpria eliminar. Ora, essas relações são claramente ambíguas e relutantes por parte de Cabral, enquanto os concretistas nele procuravam ansiosamente o grande mestre que poderia consagrá-los: no Brasil e fora do Brasil, o concretismo poético sempre foi uma escola em busca de reconhecimento. Em 1951, recebendo em Londres um exemplar de O rei menos o reino, de Augusto de Campos, estabeleciam-se relações antes protocolares que reais. É uma história de amores perdidos mais à maneira das comédias de Marivaux, já que qualquer alusão shakespeariana seria excessiva neste contexto.
João Cabral não tardaria em se revelar como noviço rebelde, pois a eleição para a Academia "estremeceu suas relações com os concretistas de São Paulo [...]. Às vésperas da posse, alguém avisa que os poetas concretos [...] comparecerão à sessão para uma performance de protesto. As notícias dão conta de que os concretos planejam se vestir de negro, carregar imensas velas acesas e ocupar as primeiras filas do plenário, emprestando à cerimônia de posse a aparência de uma missa fúnebre". Foi a batalha de Itararé do concretismo porque desistiram a tempo da grande demonstração, aliás mais dadaísta que concretista.
Anos mais tarde, Cabral declararia a José Castello que muito se interessara pela "experiência concretista": "Eu tenho a impressão que não houve nenhum movimento literário no Brasil que tivesse chegado armado de uma tal cultura, de um tal conhecimento teórico da coisa literária". Verdade epigramática que o poupou de elogiar-lhes a poesia ou, mesmo, de reconhecê-la como poesia, porque de fato, nada havia de comum entre o que ele mesmo escrevia e o que então se fazia em matéria de poemas verbivocovisuais. Assemelhavam-se, entretanto, pelo cerebralismo que os unia apesar das aparências: o concretismo era também uma poesia do objeto, recusando o lirismo, a emoção e as tradições da poesia brasileira. Nada poderia haver de mais cabralino.



