
"Teatro é onde o ator está de corpo e alma diante do público." Esse é o motivo que leva atores como Eva Wilma, com carreira consolidada na televisão, a buscar sempre novos projetos de palco. Prestes a completar 60 anos de carreira, a atriz desejava um texto à altura de sua comemoração. Encontrou isso numa peça do peruano Eduardo Adrianzén.
"Recebo muitas peças, e gosto, porque daí leio todas. Mas por essa me apaixonei", disse em conversa por telefone com a Gazeta do Povo.
Azul Resplendor, que chega ao Teatro Fernanda Montenegro de sexta-feira a domingo, fala justamente dos bastidores do teatro, ainda que a protagonista seja uma atriz muito diferente de Eva (veja o serviço completo no Guia Gazeta do Povo).
Blanca Estela, a personagem, ficou 30 anos afastada dos holofotes, motivada por uma amargura pessoal. (Eva, a atriz, subiu em cena pela primeira vez em 1953, esteve nos primórdios do Teatro de Arena de São Paulo e nunca parou de atuar.)
Blanca recebe então a visita de um admirador das antigas, Tito Tápia (Pedro Paulo Rangel), que a convence a voltar a trabalhar com um texto escrito por ele, um ator que só conseguiu realizar "pontas", papéis pequenos. A condição que ele propõe à diva é que, para a encenação, chamem um diretor de peso. Entra em cena Antônio Balaguer (Dalton Vigh), o régisseur mais badalado do momento.
Para completar o elenco de estigmas relacionados às artes cênicas, surgem um ator de telenovela, uma ex-contorcionista e uma assistente insegura. Com essa reunião de situações saídas das coxias, delineiam-se jogos de poder próprios da profissão, com espaço para ambições, vaidade, ilusões e frustrações.
Enquanto atuam lado a lado, os dois atores de regresso aos palcos têm a oportunidade de explicar o passado. "Você era péssimo", confessa Blanca, ao que Tito reclama: "Ninguém nunca me falou."
Humor
Para quem não é da área, a peça promete ser igualmente provocativa. "Ele [o autor] coloca poeticamente a questão da finitude da vida, aliada ao humor crítico em relação às artes cênicas", explica Eva. Para a atriz, o texto apaixonante não teria o mesmo efeito sem a sátira que faz do próprio meio teatral.
Para Eva, os pequenos monólogos do diretor histriônico em sua megalomania são fantásticos. "Fico ouvindo e me deleitando." Natural para quem já viu de tudo pelos inúmeros elencos por que passou.
A direção da peça, que estreou em julho deste ano, é dividida por Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas.
Dramaturgia
A escolha por uma peça latino-americana nasceu de um projeto dos diretores de análise da dramaturgia hispânica. Adrianzén, além de se destacar no teatro peruano e de outros países, escreve para telenovelas o que torna sua sátira flexível ao amplo espectro das artes cênicas.



