
A imagem sugerida por Marcelo Gomes dá uma boa idéia da sensação de vitória que é, para o brasileiro nascido em Manaus, estar no posto mais alto de uma das principais companhias de dança do mundo. "É como se eu estivesse com a bandeira no topo da montanha, pulando para cima e para baixo", diz, ele que ocupa há seis anos o cargo de primeiro bailarino do American Ballet Theatre (ABT).
Marcelo vem a Curitiba esta semana para emprestar seus movimentos a Conrad, o protagonista do espetáculo O Corsário, que apresentará no Teatro Positivo, nos dias 15 e 16, em companhia de Paloma Herrera e Angel Corella, suas colegas no ABT, a convite da escola Pettit Ballet. Antes de pegar seu vôo para o Brasil, o artista consagrado como melhor bailarino do ano pelo Teatro Bolshoi de Moscou prêmio correspondente ao Oscar da dança conversou por telefone, de Nova Iorque, com a reportagem da Gazeta do Povo.
Gazeta do Povo Como se deu a sua ligação com o Pettit Ballet?
Marcelo Gomes A Rita (de Cássia Correia) ouviu falar de mim pelas notícias do American Ballet e a gente se conheceu aqui, em Nova Iorque. Ela me falou que tinha essa escola e gostaria muito que eu dançasse com uma aluna dela e mantivesse contato. Isso foi em 2000, eu acho. Acertamos todas as datas e o contrato, vim e dancei O Corsário e foi maravilhoso. Em qualquer oportunidade que eu tenha de dançar no Brasil, vou fazer o possível para ir, mostrar que sou brasileiro e dei certo.
O que o papel de Conrad mais exige de um bailarino?
É um papel muito forte no balé. Ele é o líder dos piratas, precisa ter uma estatura alta e forte, com poder de entrar no palco com presença. Mas, ao mesmo tempo, tem uma verdadeira paixão por uma escrava que quase o salvou. O contraste é muito legal para mim como artista e também como técnica. O Corsário tem saltos e piruetas bem grandiosos, é diferente de um papel como em O Lago dos Cisnes ou A Bela Adormecida, de passos mais refinados.
Quando você o fez pela primeira vez?
Acho que foi 1998 ou 1999, quando entrei no corpo de baile do American Ballet, nem era solista ainda. Estava morrendo de medo, porque era um bailarino sem muita experiência e com toda a pressão de ser um líder de um balé e contar uma história. Foi muito difícil, mas, assim que piso no palco, me sinto em casa, mostro minha paixão. Meu diretor viu isso e me promoveu na companhia.
O que significa para a carreira de um dançarino, em especial, um brasileiro, ser o primeiro bailarino do American Ballet Theatre?
Inexplicável. Eu trabalhei a vida inteira para atingir esse ponto onde estou. Quando entrei na companhia, era como uma esponja pegando tudo o que via, trabalhando horas depois que as pessoas iam para casa. Em todas as oportunidades como solista e papéis principais eu realmente mergulhei. É uma coisa que eu queria muito. Sendo brasileiro, é inacreditável. É claro que eu queria ser profissional, mas não sabia que algum dia ganharia um prêmio na Rússia, o Benois de melhor bailarino do ano, dado pelo papel de Otelo. O apoio ao meu trabalho e o reconhecimento estão sendo maravilhosos. É como se eu estivesse com a bandeira no topo da montanha, pulando para cima e para baixo. Está sendo incrível a jornada.
Onde você mora?
Em um apartamento em Manhattan.
E como é a sua rotina de trabalho, ensaios e viagens?
Nós somos uma companhia que faz muitas turnês pelos Estados Unidos e pelo mundo. Mas temos duas temporadas grandes em Nova Iorque, no Metropolitan Opera House e no Lincoln Center por dois meses, no verão, em maio. Acabamos outra temporada no domingo (2), no City Center, um teatro menor, mas que faz trabalhos contemporâneos. Trabalhamos das 12 às 19 horas e os ensaios são bem puxados, com vários balés ao mesmo tempo e, quando temos apresentações, ensaiamos das 12 às 17 horas, com pausa antes dos espetáculos. Agora estamos com um tempo livre para viajar e fazer apresentações como convidados em outras companhias, visitar a família. Passamos, mais ou menos, a metade do ano viajando.
Na outra metade, em que fica em Nova Iorque, como é a sua relação com a cidade?
Com a mudança de presidente (a eleição de Barack Obama), eu acho que estou sorrindo muito, com muito orgulho de estar vivendo aqui. Foram oito anos de muito sacrifício, não só para americanos, mas para todos que moram aqui. Você sente automaticamente na rua uma mudança de ar, as pessoas sorrindo, olhando umas para as outras coisa que Nova Iorque caracteristicamente não tem: essa amizade e confraternização. Será mais agradável morar aqui.
Você começou sua carreira no Amazonas?
Eu nasci em Manaus, mas comecei a estudar dança no Rio de Janeiro, com cinco anos.
O Festival de Joinville, que o elegeu como bailarino revelação em 1993, marcou o momento da virada da sua carreira?
Joinville abriu muitas portas para mim, mas, depois do festival, cheguei a um ponto, no Brasil, em que eu queria mais. Foi quando ganhei minha bolsa para vir para uma escola na Flórida. Foi uma mudança muito grande na minha vida. Eu não falava inglês e tive de deixar tudo para trás: pais, amigos, irmãos. Foi bem difícil, mas eu sabia que tinha esse talento e essa paixão pela dança e queria estudar para ter outra perspectiva na vida artística. Depois de três anos, ganhei outra bolsa de estudos na ópera de Paris. Fui para lá por um ano e consegui o contrato para o ABT em 1997.
Desde então, qual seria sua maior conquista? O prêmio por Otelo?
Com certeza. São várias conquistas. Como já tive duas operações, uma no calcanhar e outra no joelho, ganhei muito respeito pelo meu corpo e aprendi muito sobre minha arte durante esse tempo fora. Cresci muito nessa época. Depois de tudo isso, ganhar um prêmio como esse me fez realmente me sentir muito vencedor.
Atualmente, o que o desafia na dança?
Sempre tem alguma outra maneira de contar uma história ou fazer um papel ou movimentar o seu corpo. Desafiar o meu corpo para fazer um passo diferente da outra apresentação, novo para o público que já me viu fazer esse papel, é o desafio que passa pela minha cabeça antes de abrir a cortina.
Em que coreografias está envolvido?
No momento, vou começar a coreografar. É uma outra etapa da minha vida que está emergindo. Comecei a coreografar há dois verões, estou realmente gostando muito. Dos outros projetos que estou começando, não posso falar agora. Depois que eu voltar do Brasil, há uma honra muita conhecida, a Kennedy Center Honors, dada pelo presidente dos Estados Unidos aos artistas que fizeram diferença no mundo das artes. Este ano, vai para (a coreógrafa) Twyla Tharp e ela me chamou para dançar no espetáculo, que será transmitido por todos os canais de televisão. Será um prazer estar lá e representar essa coreógrafa tão conhecida nos EUA.
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Serviço
O Corsário. Teatro Positivo (R. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300), (41) 3317-3283. Dia 15, às 20h, e 16, às 17h. R$ 203 (platéia inferior), R$ 153 (platéia superior) e R$ 103 (lateral). Meia-entrada para estudantes e idosos. Desconto de 20% para assinantes da Gazeta do Povo.



