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Conservar o efêmero: um desafio para os museus

Fórum reúne no MON especialistas de várias áreas para trocar experiências sobre a conservação de obras de arte contemporâneas. Evento reúne instalações e performances na sala de eventos do espaço

Hélio Leites é um dos quatro artistas que realizam performances no MON amanhã, a partir das 19 horas | Pedro Serápio/Gazeta do Povo
Hélio Leites é um dos quatro artistas que realizam performances no MON amanhã, a partir das 19 horas (Foto: Pedro Serápio/Gazeta do Povo)
As tramas de José Antonio de Lima mudam de acordo com os ambientes onde são instaladas |

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As tramas de José Antonio de Lima mudam de acordo com os ambientes onde são instaladas

Hélio Leites e Marga Puntel são alguns dos artistas que apresentam suas obras ao vivo amanhã, às 19 horas, como parte da programação do Fórum Internacional de Conservação do Moderno ao Con­­temporâneo – A Memória do Fu­­turo: um Primeiro Olhar Sobre a Realidade Nacional, que se realiza até o dia 24 de setembro no auditório do Museu Oscar Niemeyer.

Mas depois que Marga desempenhar sua performance, em que relaciona corpo e natureza, e Hélio Leites der vida aos seus objetos ao manipulá-los, o que sobra dessas proposições artísticas além dos registros fotográficos e de vídeo? Essa é uma das principais discussões a que se lançarão curadores, cientistas, artistas, restauradores e outros profissionais do Brasil e do exterior que participam de três dias de intensa programação do fórum.

"É um momento que serve para chamar a atenção para como obras de arte contemporâneas, que acon­­tecem durante um período efêmero, podem permanecer em uma instituição. Através de documentação escrita, vídeo, fotografia? Será possível refazer depois? São questões que serão estudadas por profissionais do mais alto nível para criar um documento a partir do qual possamos colocar em prática algumas estratégias", diz a curadora do fórum, Suely Deschermayer.

"O artista contemporâneo trabalha com a ideia do efêmero. Então, de que maneira o museu pode conservar uma obra feita pra desaparecer?", indaga o professor de Historia da Arte Fer­­nando Bini, que assina a curadoria de um conjunto de obras de per­­formance e instalação dos artistas José An­­tonio de Lima, Alfi Vivern, Laura Miranda e Mônicas Infante, o baiano Roaleno Ribeiro Amân­­cio Costa, além de Marga Puntel e Hélio Leites.

As obras "só acontecem", como explica Suely, amanhã à noite, quando as performances se realizam ao vivo, mas podem ser vistas pelo público até o fim do fórum. "Claro que nem todas as questões da arte são possíveis de ser abordadas, mas pegamos artistas interessados em produzir obras que irão se modificar", diz Bini. José An­­tonio de Lima, por exemplo, exibe uma de suas enormes tramas, que a cada montagem se transformam para acompanhar as possibilidades arquitetônicas e de ambiente.

Laura Miranda apresenta um registro em vídeo de uma performance realizada na represa do Lago Passaúna em que a bailarina Mô­­nica Infante dança com um grande tecido amarelo diante das águas, profundamente escuras, e depois mergulha nele. Um robô que passa de colo em colo é a proposição que une arte e tecnologia de Jack Hol­­mer. O artista e diretor do Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC), Alfi Vivern, expõe obras que iniciam com uma performance. E, por fim, o baiano Roaleno Ribeiro Amâncio Costa realiza uma projeção externa no museu.

Conservar o efêmero

"A exposição é efêmera, ela acontece e é desmanchada. Por isso, a importância do catálogo. Com ele, é possível reconstituir a exposição", diz Bini. Ele lembra, por exemplo, que a partir desse material impresso, foi possível rememorar, em 1982, a exposição que Theodoro De Bona realizou em 1927, logo após se instalar em Curitiba. "Mas quando a obra é efêmera, há todo um desafio de conservação. A grande preocupação é garantir que tudo o que acontece no cenário das artes contemporâneas se mantenha como memória futura."

A curadora explica que é preciso formar profissionais para identificar e conservar os materiais que passaram a ser utilizados pelos artistas contemporâneos, desenvolvidos após a intervenção da indústria, como plásticos, polímeros, ma­­teriais mais frágeis, ou mesmo perecíveis. "Hoje, podemos dizer que não é possível realizar a conservação da obra de arte contemporânea sem um processo multidisciplinar, que é a união de conhecimentos do historiador, do artista, do curador, do restaurador e de parte da ciência", diz.

Desafio para o futuro

O fórum também discute a necessidade de respeitar as proposições do artista. "É preciso compreender o que ele deseja, qual a mensagem que ele quer passar para o público, se ele espera que a obra permaneça ou não", diz Suely. Ela explica que as discussões sobre conservação realizadas pelos participantes do fórum, o primeiro no Brasil com esse propósito exclusivo, marcam o início de uma reflexão sobre o assunto que ainda se apresenta como uma grande desafio, principalmente no Brasil, onde ainda há uma formação tradicional do profissional em conservação.

No momento, toda a informação sobre conservação em arte contemporânea ainda vem, principalmente, de fora. Mas um cenário positivo já se configura. "Estamos aguardando a aprovação da regulamentação da profissão de restaurador e já existe um curso de graduação na área, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que ainda não formou nenhuma turma", diz a curadora.

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