
Há 37 anos, o cineasta Sylvio Back lançava o filme A Guerra dos Pelados, longa-metragem de ficção sobre a Guerra do Contestado (1912-1914). O catarinense, que viveu muitos anos em Curitiba e agora mora no Rio de Janeiro, retorna ao tema que abraçou como missão com a realização do documentário O Contestado Restos Mortais, previsto para ser lançado no primeiro semestre de 2009. "Os quatro anos do Contestado são emblemáticos pelo seu ineditismo e, igualmente, pelo seu premeditado esquecimento", diz.
As filmagens, iniciadas no ano passado, estão sendo feitas no interior de Santa Catarina, na região onde se estabeleceu o conflito (entenda a Guerra do Contestado no quadro abaixo). Em setembro, Back lançou o roteiro de A Guerra dos Pelados (Annablume Editora, 182 págs, R$ 30), sua décima publicação do gênero, contribuindo para engrossar a "estante rala e rasa" de roteiro no país. Confira a entrevista concedida por e-mail para a Gazeta do Povo.
Gazeta do Povo Por que o desejo de realizar um documentário sobre a Guerra do Contestado, um tema que você já explorou em um longa de ficção há mais de 30 anos?
Sylvio Back Nesses 37 anos que nos separam de A Guerra dos Pelados (1971), este ainda é o único filme de ficção sobre o Contestado. Desde então e agora, quando estou imerso na conclusão deste documentário, uma sensação de lesa-pátria nunca deixou de me perseguir, quase sem trégua. Não apenas por ser catarinense, ainda que o conflito seja igualmente paranaense desde as suas origens (e foi a partir de Curitiba que realizei A Guerra dos Pelados, entre 1970 e 1971), mas por ser um cineasta cuja obra é seduzida pela ânsia de reverter as falácias e o esquecimento da história oficial: o quão submersos, ignorados, omitidos, distorcidos e minimizados continuam os fatos dessa verdadeira guerra civil nos sertões de Santa Catarina.
De alguma forma você propõe um diálogo entre os dois filmes?
Confesso que me senti tentado em fazer esse mix. Mas resisti bravamente! Volto ao tema talvez movido pelo desafio que tento sempre responder em minha obra feita de "docs" (documentários) e "fics" (ficções), e por onde trafego impunemente, porque, afinal, qual a diferença entre a realidade bruta e o imaginário depois que um e outro são transformados em cinema? A exemplo do que fiz em Cruz e Sousa O Poeta do Desterro, cinebiografia do maior poeta negro da língua portuguesa, sempre esquecido e vilipendiado, e ainda hoje vítima de preconceito da própria comunidade afro-descendente, com O Contestado Restos Mortais, ancorado em autores paranaenses, catarinenses e brasilianistas, quero me alinhar ao gesto restaurador, hoje em curso, de novos insights e olhares sobre esse magno conflito. Ou seja, retirar de uma vez por todas a Guerra do Contestado do limbo da história e inoculá-lo em definitivo na corrente sangüínea do inconsciente coletivo nacional.
Como será o lançamento do filme?
Este será o primeiro documentário cinematográfico de longa-metragem sobre a Guerra do Contestado com circulação nacional e internacional e lançamento previsto para todas as mídias (cinemas, tevês abertas, pagas e públicas).
Fale um pouco sobre as filmagens.
Estamos concluindo as filmagens no perímetro que abrange os principais sítios bélicos da Guerra do Contestado, em ambas as margens do rio do Peixe, no centro-oeste de Santa Catarina, de Lages a Porto União, e vice-versa. É o ápice de três anos de intensas pesquisas, contatos com os "herdeiros da memória" e levantamento de um vasto acervo iconográfico, que vai revelar imagens inéditas (fixas e em movimento) do conflito. Testemunhos de um imaginário que permanece vivo quase cem anos depois, opiniões abalizadas das maiores autoridades acadêmicas do país no tema e revisita sensorial ao teatro de operações do Contestado são alguns dos acepipes cinemáticos que compõem a estrutura narrativa do filme.
Que recursos narrativos você propõe neste filme?
Não existe fórmula, fujo da mesmice como o capeta da cruz. Basta o cinema brasileiro atual, majoritariamente, uma pletora de filmes vira-latas, imitações do já visto e ouvido! Por isso, nunca me dublo. Se a linguagem de um filme deu certo, jamais a repito. E se, pelo contrário, ela fracassou, um novo feixe de fotogramas não será a plataforma para consertá-la. Cada filme deve correr seu risco, para isso engendrando sua própria estética e sua própria ética. Cada filme deve encontrar seu leito moral e formal para desembocar numa obra aberta, sem pretensão de difundir ou carimbar verdade alguma. Nunca parto de uma idéia preconcebida, ou de um modelo consagrado, enfim, de uma convicção e de uma narrativa para catequisar a platéia. Gosto de deixar o espectador desarvorado, como um astronauta perdido no espaço. Quanto a O Contestado Restos Mortais, todos os influxos materiais e imateriais estão sendo convocados e incorporados. E depois, se já soubesse como seria o filme, ele perderia o encanto. E sem encantamento, pra quê fazer cinema?



