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Cena do filme "Cópia Fiel" | Divulgação
Cena do filme "Cópia Fiel"| Foto: Divulgação

Melhor atriz no Festival de Cannes 2010, Juliette Binoche resplandece em Cópia Fiel (veja horários das sessões; atenção à data de validade da programação em cinza), novo filme do diretor iraniano Abbas Kiarostami.

Refletindo uma preocupação presente ao longo da própria obra de Kiarostami e de outros cineastas iranianos, bem como particularmente num trabalho recente do brasileiro Eduardo Coutinho ("Jogo de Cena"), "Cópia Fiel" constroi um admirável jogo de verdades e mentiras de um casal, formado por Juliette Binoche e o cantor lírico britânico William Shimell, estreando no cinema.

A verdadeira natureza do relacionamento destes dois é uma das chaves da descoberta da história, cheia de camadas, climas e evocações. Filmado em belíssimos cenários da Toscana, o filme é uma joia intimista, pulsante nos rostos de seus atores e em que o uso do discurso amoroso - oscilando entre o inglês, o francês e o italiano - é movido pelas chamas, ora amortecidas, ora vibrantes, da maturidade.

Nas primeiras cenas, vê-se o escritor James Miller (Shimell) chegando a uma cidadezinha italiana para uma palestra sobre seu novo livro sobre arte, que se chama justamente "Cópia Fiel". A partir de detalhes aparentemente banais, evidencia-se um dos temas do filme, sobre as contínuas interrupções do discurso, qualquer que seja. Como quando a apresentação de Miller é interrompida pelo toque de seu próprio celular e pela entrada de uma espectadora atrasada (Juliette Binoche) e seu filho (Adrian Moore).

O fato de que ela se senta entre os lugares reservados na plateia e que cochiche com o tradutor do livro, ao seu lado, parece evidenciar que ela é íntima do escritor. Mais tarde, uma conversa com o filho dá a pista de que, na verdade, ela procura essa intimidade. Quando Miller e ela finalmente se encontram, na loja de antiguidades dela, eles parecem na verdade estranhos que podem ou não querer se conhecer.

Sem querer estragar o jogo da narrativa, o relacionamento entre os dois atravessa vários climas, da tentativa de sedução ao compartilhamento de lembranças e sensações. É como se estes dois tivessem vivido algumas vidas diferentes e, em algumas, se encontrado, noutras, se perdido - sem que isso acarrete nada de sobrenatural, apenas experiências diversas ao longo dos anos.

Além da natureza instável do amor, "Cópia Fiel" toca outros temas - o primeiro deles, o que dá nome à obra, em torno da importância da discussão sobre o que é autêntico ou falsificado, e o valor, relativo ou absoluto, das muitas cópias encontradas no mundo da arte.

Nesta discussão, é envolvido inclusive um casal de passagem, (o famoso roteirista Jean-Claude Carrière e Agathe Natanson). Justamente quando procura engajá-los a favor de seus argumentos, a protagonista encontra no passante ocasional um intérprete ideal do que está, emocionalmente, tentando dizer a Miller - sem que este a entenda, independentemente da língua que ela fale.

Essas várias línguas que se sobrepõem são o símbolo vivo das várias camadas de incompreensão que podem se acumular entre as pessoas nesta Babel que não é só linguística, mas sobretudo emocional e amorosa. Os vários casais que aparecem no filme - os jovens noivos apaixonados que se sucedem para uma foto junto a uma estátua tida como portadora de sorte; o par maduro que conduz o filme; e uma dupla de velhinhos que eles encontram perto do final - todos se somam como retratos dos vários tempos do amor.

Essa maneira circular de expor seu tema é o grande segredo da magia do filme, que demonstra o engenho raro de sua direção e de sua dupla principal de atores, conduzindo-se esta espiral de sensações com inteligência e sutileza exemplares. Não é o tipo do filme que se vê todos os dias. Mas é certamente o tipo que se deseja imediatamente rever.

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