
Os bastidores da arte do teatro, cada vez mais expostos ao público, estão escancarados em Corte Seco, em cartaz no Teatro da Caixa de sexta a domingo, com a curitibana Marjorie Estiano (cuja presença é incerta na apresentação de sexta-feira) e Eduardo Moscovis (Veja o serviço completo do espetáculo no Guia Gazeta do Povo). Não apenas o elenco permanece o tempo todo no palco, o que tem se tornado frequente, como também ficam ali a diretora, Christiane Jatahy, e os profissionais de iluminação e sonoplastia trabalhando. A ideia é essa mesma, que a peça seja cortada e modificada sempre que necessário.
No "esqueleto" do roteiro estão cenas fixas, que os atores sabem que farão em todas as apresentações. Contam histórias como a de um casal que decide adotar uma criança, até que um deles desiste; dos conflitos entre uma mãe e sua filha; da relação de um travesti com a família, entre outros relatos de amor e desencontro.
"O que eu faço é ir mudando a ordem das cenas e o corte que elas vão ter. Às vezes coloco algumas, outros dias, não. E reconstruímos o mosaico a cada dia", explicou Christiane, em conversa com a Gazeta do Povo. "Nem eles nem eu sabemos o que vai acontecer."
Marjorie, que atualmente faz Manuela na novela A Vida da Gente, comentou no programa TV Cennarium, disponível na internet, o quanto esse tipo de interpretação experimental a deixou mais atenta e rápida para reagir em cena, em qualquer tipo de atuação. Em Corte Seco, ela e o restante do elenco nunca sabem em que ponto de uma cena terão de parar ou se ela chegará ao fim sem saberem com que continuar. "Vamos até o fim da cena e daí começamos a improvisar, se ela não cortar a gente", explica.
Para definir o que fica e o que sai, Christiane leva em conta o "clima" da apresentação uma noção bastante subjetiva. Ainda que fique atenta à recepção por parte do público, não existe uma "perfeição" a ser buscada. "Às vezes é mais interessante deixar uma cena por mais tempo mesmo que ela pareça esgotada o projeto, nesse sentido, é surpreendente como a vida, em que também não sabemos o que vai acontecer."
Audiovisual
Outra experimentação incluída em Corte Seco foi a instalação de câmeras de segurança em volta do teatro, na rua, e nos bastidores, trazendo para três monitores de tevê localizadas no palco imagens de atores que se encontram nesses outros lugares. As transmissões são editadas na hora por profissionais que também ficam no palco.
"Perceber que existe uma identificação grande do público com essas cenas [externas] dá um reconhecimento bacana do caminho que trilhamos", apontou Moscovis, também ao programa Cennarium.
Trilogia
Corte Seco integra a trilogia Uma Cadeira para a Solidão, Duas para o Diálogo e Três para a Sociedade, iniciada com o monólogo Conjugado e a peça A Falta Que Nos Move. Em comum, as três têm a brincadeira com a dúvida sobre se o que está no palco é verdade ou ficção, além de um texto construído junto com os atores, durante os ensaios, usando fatos reais.
Fazer um teatro assim, sem um roteiro mestre, não é arriscado? "Claro que é sujeito ao risco, não quer dizer que sempre é um acerto. Por isso é vivo", define Christiane.
Serviço:
Corte Seco. Teatro da Caixa (R. Cons. Laurindo, 280), (41) 2118-5111. Dias 10 e 11, às 21 horas, e dia 12, às 19 horas. R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada). Classificação indicativa: 18 anos. Ingressos à venda a partir de hoje. Sujeito a lotação.



