
É quase regra. Todos os anos, alguns filmes menos badalados, sobre os quais a imprensa não havia falado muito, acabam, aos poucos, ganhando a atenção da crítica, e, por vezes, também do público durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Nesta 36.ª edição do festival paulista, um desses títulos é Perder a Razão, longa-metragem do diretor Joachim Lafosse (de Propriedade Privada), representante da Bélgica na briga por uma vaga entre os cinco indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013.
Trata-se de um drama devastador sobre uma família que tem início quando Murielle (Émilie Dequenne, do premiado Rosetta) se casa com Mounir (Tahar Rahim, de O Profeta), um jovem de origem marroquina criado na Bélgica por um médico, André (Niels Arestrup, de Cavalo de Guerra), que lhe serve como uma espécie de padrinho, ajudando também sua família de várias maneiras.
Embora, aparentemente, André sirva Mounir como uma figura paterna, a relação entre os dois é ambígua, mesmo que em momento algum fique claro se há ou não entre eles um envolvimento de outra ordem. Paira no ar uma suspeita, que o filme não confirma, tampouco desmente. O fato é que o médico, desde o início do relacionamento entre Murielle e Mounir, interfere nos mínimos detalhes, os trazendo para viver em sua casa, dando opinião sobre como criar os filhos ou a maneira de gerir as finanças.
A onipresença de André, um homem manipulador, que parece ter por Mounir um afeto obsessivo e controlador, acaba com o passar dos anos por desestabilizar Murielle, que, para se defender, se aproxima das raízes marroquinas da família do marido. Para escapar do domínio do padrinho do marido, chega a pedir para que se mudem, junto com os quatro filhos, para o norte da África.
Afora a leitura mais óbvia, que sugere algo patológico na forma como André insiste em controlar e manipular todos que o cerca, Perder a Razão, além de descrever o processo de esfacelamento emocional de Murielle, também pode ser interpretado como um metáfora política. André representaria o poder predatório europeu frente uma cultura colonizada, mais "frágil", no caso a marroquina, que se rende aos avanços predatórios e imperialistas de alguém que julga tudo poder.
Com excelentes atuações, sobretudo de Émilie Dequenne, premiada em Cannes, na mostra Um Certo Olhar, Perder a Razão atesta o talento de Joaquim Lafosse de construir uma narrativa tensa, que não deixa tudo claro ao espectador, e é capaz de nocauteá-lo em seu desfecho. Incomoda, em certa medida, que talvez as ações perversas de André possam ser relacionadas a sua sexualidade, o que seria um explicação simplista, mas, ainda assim, trata-se de uma obra poderosa.
O jornalista viajou a convite do festival.



