
Escrita no fim da década de 1960 e constantemente atualizada, a peça Mistero Buffo é considerada a obra máxima do ácido dramaturgo italiano Dario Fo. Ganhador do Nobel de Literatura em 1997, o autor se destaca por discutir problemas sociais usando formas de teatro popular, como a commedia dellarte. No Brasil, a montagem mais recente de sua obra é assinada pelo grupo de palhaços La Mínima.
A produção, em curta temporada desde ontem no Teatro da Caixa, apresenta um trecho da obra de Fo, composto por vários monólogos. "Esse espetáculo foi montado durante anos e coincide com sua fase política e militante mais ativa. Adaptamos apenas quatro quadros", afirma Domingos Montagner (da minissérie O Brado Retumbante), que divide a cena com Fernando Sampaio.
A dupla é dirigida por Neyde Veneziano, uma das maiores especialistas no trabalho do dramaturgo no país. Além de pesquisar o autor em seu pós-doutorado, ela também é autora do livro A Cena de Dario Fo: o Exercício da Imaginação.
Crítica
Mistero Buffo é uma releitura das histórias bíblicas "A Ressurreição de Lázaro", "O Cego e o Paralítico", "O Louco e a Morte" e "O Jogo do Louco aos Pés da Cruz". O tom de toda a peça é descrito pela produção como satírico e, em alguns momentos, à beira do profano. "A obra trata de questões universais. Ela tem um olhar apurado e uma crítica feroz sobre as relações humanas, mas com elegância e inteligência", reforça Montagner.
Fo provocou a sociedade quando lançou sua obra em 1969. O texto se mantém atual, segundo os membros da companhia, apesar de retratar um momento de forte efervescência política. Por isso, as alegorias apresentadas pelo autor são facilmente entendidas. "Dario construiu a peça a partir de pesquisa sobre jograis medievais, que, de certa forma, foram precursores dos palhaços. Selecionamos os quadros que têm diálogo com nossa realidade e, ao mesmo tempo, nos oferecem um desafio importante no exercício de nossa arte", revela o ator.
A vontade de montar o espetáculo surgiu há dois anos, quando o La Mínima estava para completar 15 anos de estrada. A obra do autor italiano foi uma maneira de refletir o estilo de atuação do grupo, que desde seu surgimento optou por trabalhar com uma linguagem circense.
Montagner e Sampaio se conheceram em uma escola de circo. Em 1997, eles se uniram para formar a companhia, hoje dedicada às pesquisas para experimentar novas maneiras de se trabalhar como palhaço. "Esse ofício é confundido como uma arte menor, como outras manifestações populares. Aí entra a seriedade do artista, que revela complexidade e sofisticação nessas atuações", salienta Montagner.
A dupla, que esteve em Curitiba com a peça A Noite dos Palhaços Mudos em 2012, apresenta amanhã, a partir das 16 horas, uma conferência sobre a atuação como palhaços. Os ingressos para a palestra são gratuitos, mas precisam ser retirados uma hora antes, na bilheteria do teatro.



