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Curitiba de bêbados, fofoqueiras e polacas

Obras significativas como “O Medo” e “Polaca” são exibidas no Museu Guido Viaro. Além do acervo do artista, o espaço vai receber mostras temporárias de artistas contemporâneos

O prédio de 1929 também será espaço para cursos, palestras, shows e encenações teatrais | Fotos: Giuliano Gomes/Gazeta do Povo
O prédio de 1929 também será espaço para cursos, palestras, shows e encenações teatrais (Foto: Fotos: Giuliano Gomes/Gazeta do Povo)
O museu fará rodízio para exibir as obras do seu acervo |

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O museu fará rodízio para exibir as obras do seu acervo

Há menos de um ano, era preciso esperar a abertura de uma exposição para contemplar em conjunto a obra de um dos mais importantes artistas do Paraná. No intervalo entre uma mostra e outra, o jeito era se contentar em ver algumas telas ali, outras acolá, em museus locais e nacionais.

Desde novembro, no entanto, é possível ter acesso a obras significativas, publicações, vídeos, fotografias e até ouvir a voz com leve sotaque italiano do mestre Guido Viaro em um espaço inteiramente dedicado a ele. É o Museu Guido Viaro, criado por sua família para expor, em rodízio, as centenas de obras que há 15 anos permanecem guardadas na casa de seu filho, Constantino Viaro.

O espaço volta a dar teto digno ao legado do artista depois que, em 1995, diante das más condições do local, seus herdeiros decidiram retirar as obras do antigo Museu Guido Viaro, criado pela prefeitura municipal de Curitiba em 1975, no Largo da Ordem.

A visita ao edifício cinzento de 1929 – coincidentemente, o mesmo ano da chegada do artista italiano ao Brasil –, tem início com três obras que remetem às origens do mestre de muitos artistas paranaenses. São autorretratos dos grandes incentivadores do jovem Guido: o famoso escultor Angelo Viaro, que tem uma de suas obras na Catedral de Bolonha, e o pintor Antonio Viaro, ambos da região do Vêneto, na Itália. Abaixo deles, figura o primeiro dos inúmeros auto-retratos feitos por Viaro ao longo da vida, pintado em 1914, aos 15 anos de idade.

Artista passional

Antes de seguir a trilha dos quadros, abasteça-se com as informações fornecidas por uma linha do tempo, que destaca, em texto e imagens, os principais acontecimentos da vida de Viaro. Nela ficamos sabendo que, graças a uma paixão fulminante, Curitiba se tornaria lar definitivo do pintor.

Ele estava a caminho do México, quando viu sua futura mulher na Rua XV, Yolanda. Imediatamente, vendeu o bilhete de navio e comprou tudo em flores. Após informar sua morte, em 1971, a linha do tempo inicia uma segunda etapa, em que relaciona eventos e exposições em homenagens ao artista até os dias de hoje.

A boca e o vestido vermelhos e o azul luminoso dos olhos de "Polaca", tela de 1935, revelam o italiano passional, que antes de conhecer Yolanda já havia pedido a mão de outra curitibana: a hoje centenária Hedwiges Mizerkowski. "Ela é incrivelmente ágil, lúcida. Esteve aqui na abertura do museu e disse que recusou o pedido de casamento, mas sempre foi apaixonada por ele", conta o escritor Guido Viaro, neto do artista.

Abaixo da tela, considerada pelos críticos que viram a exposição Tradição e Ruptura, realizada em São Paulo, o melhor retrato feito no Brasil na década de 1930, está o filme O Retrato da Polaca, em que Edwiges conta sua história, dirigido por Fernando Severo , Allysson Muritiba, Haruo Oshima e Antônio Junior.

O restante dos pisos térreo e superior revela um artista que ousava experimentar, sem nunca se atrelar a uma única corrente. "Ele misturava linguagens antigas a traços mais modernistas", diz Guido Viaro. É o caso, por exemplo, das telas de temática religiosa pintadas com fundos dourados que remetem à tradição bizantina.

Ao lado de telas mais tradicionais, como as "Lavadeiras" e "Fofoqueiras", de 1945, frutos das inúmeras excursões que fazia ao litoral paranaense para pintar, estão obras modernistas como "Bruxaria", de 1965, e "Tipos", de 1960, com seres bizarros de olhares esvaziados. Há ainda nus femininos, naturezas mortas, fundos de quintal e retratos de anônimos como "Toni, o Vagabundo", de 1950. "Era um bêbado que ganhava uns trocados posando para os pintores", conta Viaro.

Imperdíveis também são as obras "O Medo", de 1948, que remete a "O Grito", do expressionista Edward Munch, e "Homem sem Rumo", de 1940, dramático retrato do pintor Miguel Bakun (1909-1963).

Por fim, um cantinho do piso superior convida o visitante a se sentar e ouvir a voz do artista em uma entrevista concedida na década de 1970 à crítica Adalice Araújo – que, junto com o áudio, cedeu ao museu um pequeno retrato seu feito pelo artista Estanislau Traple.

Serviço:

Museu Guido Viaro (R. XV de Novembro, 1.348), (41) 3018-6194. De terça a sábado, das 14 às 18 horas. Informações sobre o museu e seu artista no site.

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