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1950 e 1960

Curitiba e todo aquele jazz...

Um retrato da cena musical paranaense nos anos em que foi embalada por conjuntos “regionais” e por grandes orquestras, nas emissoras de rádio e nas agremiações sociais

Réveillon de 1955 no Sírio e Libanês: horas depois de o pianista Gebran Sabbag tocar, o clube pegou fogo. “Este sim é que é o verdadeiro jazz hot!”, disse um piadista de plantão |
Réveillon de 1955 no Sírio e Libanês: horas depois de o pianista Gebran Sabbag tocar, o clube pegou fogo. “Este sim é que é o verdadeiro jazz hot!”, disse um piadista de plantão (Foto: )
Airto Moreira viveu em Ponta Grossa e virou colaborador de Miles Davis |

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Airto Moreira viveu em Ponta Grossa e virou colaborador de Miles Davis

Gebran Sabbag ao piano Essenfelder |

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Gebran Sabbag ao piano Essenfelder

Raul de Souza: depois de tocar pandeiro e tuba, adotou o trombone de válvula e brilhou nos programas de calouros do Ary Barroso |

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Raul de Souza: depois de tocar pandeiro e tuba, adotou o trombone de válvula e brilhou nos programas de calouros do Ary Barroso

Na dourada década de 1950, a terra roxa paranaense fazia fortunas e abarrotava os armazéns de sacas de café. À falta de locais adequados, o "ouro verde" foi estocado em ginásios de basquete e debaixo das arquibancadas de campos de futebol, em museus e em quartéis, duas ou três super-safras somadas subiam a dezenas de milhões de sacas que traziam uma nova era para a economia paranaense. Os caminhões que carregavam o café para os portos de embarque provocavam um engarrafamento que se estendia de Ponta Grossa até Paranaguá. Um hit celebrava esta bonança, "The Coffee Song", na voz de Frank Sinatra: "They’ve got a zillion tons of coffee in Brazil (...) Why, they put coffee in the coffee in Brazil."(Eles têm zilhões de toneladas de café no Brasil (...) Pôxa, eles botam café no café no Brasil." Corria até que o governo brasileiro encomendara a música a peso de ouro para o crooner número um da América.

Londrina ostentava a maior "Zona" do mundo: o bairro dos bordéis cobria vários quarteirões, uma verdadeira Disneylândia para Adultos (e Adúlteros). Numa incursão noturna em meados de 1962, flagrei até um secretário do governo numa casa especializada em "paraguaias fogosas". Em Curitiba, centro político e financeiro do estado, a prostituição mascarava-se pelos inúmeros cabarés da cidade, com shows de striptease. Mas havia também locais mais sofisticados e amenos, os clubes noturnos onde políticos, jornalistas e homens de negócios se reuniam para conversar e beber ao som de pianistas e pequenos grupos. O boom econômico alargou também os espaços para os conjuntos "regionais" e as grandes orquestras, nas emissoras de rádio (com seus programas de auditório) e nas agremiações sociais (com seus bailes elegantes). Seria exagero dizer que Curitiba era um grande centro jazzístico, mas, aqui e ali, lampejos de genialidade se faziam ouvir, estimulados pela grande revolução nas técnicas de reprodução sonora ocorrida no pós-guerra, principalmente com o advento do LP. Álbuns de jazz eram raridades, mas acabavam chegando em Curitiba. Corriam de mão em mão, de ouvido em ouvido, faziam cabeças, e os mais talentosos despertavam para uma nova linguagem, uma nova maneira de abordar a música. Três deles, nascidos fora do Paraná, começaram a fazer o seu nome nas frias noites de cerração em Curitiba e alcançaram sucesso no competitivo Olimpo do jazz, os Estados Unidos: o carioca Raul de Souza, o catarinense Airto Moreira e o gaúcho Breno Sauer. Mas vale exaltar, também, a prata da casa e lembrar, na comemoração dos 50 anos da bossa nova, que a gravação do Chega de Saudade contou com a participação de um paranaense. Guarany Nogueira, então com 30 anos, figurou entre os quatro percussionistas escolhidos a dedo por João Gilberto. Guarany era uma raridade, um baterista sem o uso da perna esquerda, atingida pela paralisia infantil, mas com uma noção de ritmo admirável, que o fez brilhar nos círculos da bossa e até do erudito em sua temporada carioca. Por muito tempo ele tocou no Ludus Tertius, com Gebran Sabbag (piano) e Norton Morozowicz (baixo). Gebran foi um daqueles jovens curitibanos que descobriram o jazz nos LPs de Art Tatum, Erroll Garner e Oscar Peterson, fazendo uma amálgama destas três escolas de piano totalmente diversas. Horas depois de Gebran tocar no baile do réveillon de 1955 no Sírio e Libanês, o clube pegou fogo. Um piadista de plantão decretou: "Este sim é que é o verdadeiro jazz hot!"

João José Pereira de Souza, nascido no Rio de Janeiro, filho de pastor, tocou pandeiro na Igreja Presbiteriana e depois tuba na banda da Fábrica Bangu. Adotou o trombone de válvula (ou de pisto) e brilhava nos programas de calouros do Ary Barroso, que o apelidou de Raulzinho, em alusão ao Raulzão de Barros, o rei do trombone na época. Raul de Souza e meia dúzia de famosos instrumentistas cariocas foram recrutados para atuar na banda da Escola de Oficiais Especialistas da Aeronáutica e Infantaria de Guarda, em Curitiba. O comandante da base, de sobrenome Peralta, no bairro do Bacacheri, queria uma banda à altura de competir com as demais da cidade durante os grandes eventos cívicos. Raulzinho tinha uma fome de tocar insaciável. Depois de passar o dia ensaiando marchas e dobrados na Base Aérea do Bacacheri, descia para tocar nas boates da cidade, sempre com o uniforme azul da aeronáutica. A redação da Gazeta do Povo virou ponto de encontro; fechado o jornal, saíamos (o bando incluía intelectuais da laia de Dalton Trevisan e Mário de Melo Leitão) na companhia do Raul para onde quer que rolasse um som. Mas o jazz ainda era uma música incompreendida, senão maldita. Na Caverna, um dancing no subsolo do Clube Curitibano, ele dava "canjas" com o grupo do Beppi, trompetista e pianista italiano, ainda hoje na ativa, animando festas da sociedade curitibana. Mal ensaiava um improviso, Raul era expulso do tablado: música de dancing devia ser bem-comportada, só para dançar. A gana de tocar era tanta que Raul soprava na fria noite curitibana para estátuas, fazia serenatas debaixo das janelas de donzelas locais – enquanto não jorrasse o proverbial balde de água fria – tocou até para os búfalos aquáticos do Passeio Público, vizinhos da Boate Tropical. Por uma breve temporada, Raul controlou seus instintos jazzísticos e se habituou ao repertório da época – bolero, mambo, chá-chá-chá, samba-canção – chegando a tocar contrabaixo durante seis meses com o trio de Gebran Sabbag na Boate Luigi. Foram seis anos de Curitiba, com direito a casamento e três filhos. Em 1962, o sexteto de Paul Winter, em excursão pela América Latina, tocou no esqueleto do "Guairão" e sugeri ao saxofonista que ele apresentasse Raul de Souza como solista convidado. Foi um sucesso e o jovem trombonista no uniforme blue da Base do Bacacheri deixou os gringos boquiabertos. O grande Raulzinho estava pronto para botar o pé no mundo — e o resto é História.

Outro jazzista de fama internacional que se fez nas noites frias de Curitiba foi Airto Guimorvan Moreira. Nascido em Itaiópolis, Santa Catarina, morou algum tempo em Ponta Grossa. Lá, nas imensidões dos Campos Gerais, segundo a descrição colorida de Adherbal Fortes de Sá Jr., "aos 7 anos, Airto começou a ganhar os primeiros trocados acompanhando outro italiano, um gaiteiro dono de uma linda Scandalli. No Paraná agrícola, com poucas estradas, andando a cavalo, os dois levavam cinco, seis horas para chegar até alguma das tantas colônias onde tocavam. Acordeonista e acordeão na frente e o menino atrás, carregando em um embornal chocalho, agogô e pandeirinho. Também levavam água e comida porque cortavam muito mato. O destino eram as festas de italianos, às vezes alemães e poloneses, que o menino conhecia como polacos. Airto ficava encantado. Os imigrantes tinham terras a perder de vista, e não faltava motivo para um baile. Casamento, bodas, batizado, sempre com mesa farta."

Aos 15 anos, Airto partiu para a conquista de Curitiba, profissionalizando-se ainda "de menor", como baterista, percussionista e cantor em bandas de baile, programas de auditório das rádios e nos conjuntos das boates locais. Um dia, o batera que cantava boleros na ZYM5, a Rádio Guairacá — "A Voz Nativa da Terra dos Pinheirais" — se mandou com Raulzinho para tocar no João Sebastião Bar, o reduto paulistano da bossa nova. Lá, Airto conheceu a cantora carioca Flora Purim, com quem formaria um "Casal 20" do jazz. No final da década, Airto gravou um dos álbuns mais significativos da fusion, Bitches Brew, de Miles Davis, lançado em 1970. A partir daí, foi uma carreira de sucesso ininterrupto, sempre eleito o Percussionista do Ano nas maiores revistas especializadas. Volta e meia, bate a saudade e Raul e Airto voltam a Curitiba. Sintomaticamente, a banda que acompanha Raul nos últimos anos é a curitibana NaTocaia.

A terceira estrela foi e não voltou mais. O gaúcho Breno Sauer, vibrafonista e acordeonista, revelou-se na boate curitibana La Vie en Rose. Filho de uma família musical, começou tocando acordeão, inspirado pelo conjunto de Art Van Damme, o grande jazzista do instrumento. Por problemas cardíacos, largou a sanfona e passou para o vibrafone. A mudança trouxe um toque intimista e sofisticado ao seu grupo, que lembrava o do pianista inglês George Shearing, autor do antológico Lullaby of Birdland. A música casava com a atmosfera do bar. Adherbal Fortes de Sá Jr. descreve admiravelmente: "Por fora era cor-de-rosa. Por dentro, o teto imitando um céu estrelado. E quando a iluminação era acionada, spots direcionados para cima, o céu estrelado ganhava brilho. A boate La Vie en Rose era sofisticada, freqüentada por gente importante. Muitos executivos de Santa Catarina vinham a Curitiba só para se divertir ali. Tinha uma pequena pista de dança, mas o público queria, mesmo, era conversar e ouvir boa música. A casa empregava algumas garotas para conversar com os clientes. Mas o forte era a música."

Lembro bem das minhas noites tranqüilas na boate da Visconde de Nacar, numa mesinha com dois ou três companheiros de jornal, o drinque de cuba libre e o pratinho de amendoim salgado (a 18 cruzeiros, um dólar na época), deleitando-me com o jazz suave do grande Breno Sauer (e a guitarra de Olmir Stockler, o Alemão, que se tornaria um dos grandes instrumentistas brasileiros, e a bateria do Pirata, que anos depois comandaria o bar da piscina do Círculo Militar.) Breno Sauer partiu também para a América e fez o seu nicho em Chicago, um dos grandes pólos do jazz nos EUA.

Outras lembranças atravessam a cerração dos tempos. A vibrante orquestra de Castrito na PRB2, a incrível coesão da big band de Genésio Ramalho, exclusiva dos Chás de Engenharia nas tardes de domingo no salão da Sociedade Duque de Caxias, a duas quadras da Gazeta do Povo. "Os Chás de Engenharia," segundo Dalton Trevisan, "onde as donzelas aprendem de tudo, menos a tomar chá." Os Chás de Engenharia em que eu nunca dançava, mas ficava colado ao tablado da orquestra, extasiado com o sax tenor Mourinha, e o embalo mágico do prefixo musical do Genésio, Johnson Rag, com seu suingue envolvente, memória recuperada meio século depois ao revisitar com a pesquisadora Marília Giller aquela Curitiba perdida do Dalton, do Raul, do Airto e do Breno e rever todos aqueles que sobreviveram para testemunhar.

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