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Heavy metal

Da fita cassete à demolição do TUC

Acostumada a shows internacionais, Curitiba se firmou no roteiro do heavy metal. A história começou nos anos 80, quando fãs buscavam gravações e punham abaixo o Teatro Universitário de Curitiba

Mosh: f㠓voa” em show da primeira banda de thrash metal de Curitiba, o Epidemic, em 1987 | Arquivo pessoal/Alexandre Baldon
Mosh: f㠓voa” em show da primeira banda de thrash metal de Curitiba, o Epidemic, em 1987 (Foto: Arquivo pessoal/Alexandre Baldon)
Fãs em show no TUC em 1987: primeiro templo do heavy metal curitibano |

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Fãs em show no TUC em 1987: primeiro templo do heavy metal curitibano

Epidemic na abertura do show do lendário Vulcano: pioneiros do thrash metal |

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Epidemic na abertura do show do lendário Vulcano: pioneiros do thrash metal

Dirceu, Sazi e Lelo: a linha de frente do Scarnio |

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Dirceu, Sazi e Lelo: a linha de frente do Scarnio

Scarnio no Parque São Lourenço |

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Scarnio no Parque São Lourenço

Sazi, baixista do Scarnio, durante show em Ourinhos (SP) |

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Sazi, baixista do Scarnio, durante show em Ourinhos (SP)

Capa da demo-tape

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Capa da demo-tape

Epidemic: Rodrigo, Alexandre, Daniel e Guto |

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Epidemic: Rodrigo, Alexandre, Daniel e Guto

Funeral: pioneiros do death metal |

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Funeral: pioneiros do death metal

Funeral: Eduardo

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Funeral: Eduardo

Página de fanzine com o Epidemic |

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Página de fanzine com o Epidemic

Capa para fita de demo-tape do Epidemic |

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Capa para fita de demo-tape do Epidemic

À espera dos shows no festival do Centro Politécnico da UFPR, em 1988 |

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À espera dos shows no festival do Centro Politécnico da UFPR, em 1988

Infernal: além das fronteiras brasileiras |

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Infernal: além das fronteiras brasileiras

Antonio Death, Rafahell e Mano: a primeira formação do Imperious Malevolence |

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Antonio Death, Rafahell e Mano: a primeira formação do Imperious Malevolence

Holy Death, outra banda de thrash metal dos anos 80 |

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Holy Death, outra banda de thrash metal dos anos 80

Quem segue da Praça Tiradentes rumo ao Largo da Ordem não precisa esperar o sinal fechar, como dizem os pedestres na capital mais fria do país. Basta descer alguns degraus e atravessar a galeria Julio Moreira, uma pequena passagem subterrânea que abriga o Teatro Universitário de Curitiba, o TUC, e espaços da Fundação Cultural de Curitiba. Não é preciso nem 30 segundos para cruzar a galeria.

Três décadas atrás o pequeno atalho era praticamente o mesmo, à exceção de pequenas salas comerciais em frente ao teatro, mas muita gente preferia enfrentar o sinal e desviar dos que insistiam em ser cabeludos quando quase todos já tinham cortado o cabelo. Ficavam amontoados entre o TUC, palco dos primeiros shows de rock pesado em Curitiba, e a extinta loja Música Viva, na metade da década de 1980 a única com LPs importados de heavy metal na cidade.

Veja fotos das bandas curitibanas

Naquele escuro ponto de encontro começou uma história que ainda hoje é escrita com shows de gigantes como Iron Maiden e Slayer, que se apresentaram na cidade no dia 24 de setembro, e lendas como o canadense Exciter, que tocou na capital paranaense no dia 5 do mesmo mês. Bons públicos e uma boa agenda colocam a cidade como uma das capitais do heavy metal no país, atrás apenas de São Paulo.

Um cenário impensável para quem corria atrás dessas bandas quando elas davam seus primeiros passos, nos distantes anos 80. Na época em que "youtube" e "mp3" seriam confundidos com algum robô da série Guerra nas Estrelas, o que chamava a atenção dos fãs de música pesada em Curitiba eram as paredes da Música Viva, com LPs de bandas como Slayer, Metallica e Venom. Era o local onde batiam ponto diariamente.

O rock pesado tinha bom público no Brasil no início dos anos 80, mas as vendas foram impulsionadas pela primeira edição do Rock in Rio, em 1985. As gravadoras usavam campeões de audiência, como Iron Maiden e Ozzy Osbourne, para tentar alavancar grupos de qualidade duvidosa. Muitas bandas desses pacotes eram promovidas nas poucas revistas brasileiras do gênero, mas seus discos acabavam em algum sebo.

Enquanto o laquê invadia revistas e lojas, os novos grupos do thrash, do speed metal e de outros subgêneros chegavam aos fãs por meio dos fanzines, publicações xerocadas e enviadas pelo correio. Tratados como preciosidade, os discos dessas bandas eram exemplares raros. E nunca estavam à venda: só era possível comprar uma fita gravada, a um preço ligeiramente inferior ao de um LP nacional. Os fanzines traziam o endereço postal de lojas da Galeria do Rock e da Woodstock Discos, em São Paulo. Era só solicitar o catálogo, fazer o pedido e retirar as fitas, duas ou três semanas depois.

A pirataria por meio da fita cassete foi o caminho para os fãs que fugiam da "farofa" despejada pelas gravadoras. Sem downloads ou iPods, corria-se atrás da Scotch transparente, da Basf alaranjada e da TDK preta. E sempre havia uma no bolso da jaqueta, para o caso de topar com alguma novidade pelo caminho. As gravações eram trocadas, as fitas corriam a cidade. Deve ter sido a melhor maneira já encontrada pelas gravadoras para jogar dinheiro pelo ralo.

Com o fim da Música Viva houve uma migração para outra loja, a Megaphone, no Omar Shopping — que chegou a proibir a entrada de "cabeludos" após alguma confusão entre os bebedores de cerveja que se aglomeravam na praça de alimentação. A proibição durou pouco, mas eles já estavam espalhados pelo Largo da Ordem ou entre os bares da Saldanha Marinho e o Lino's Bar. Outra loja importante, com raridades e importados, foi a também extinta Jukebox, na Rua 13 de Maio.

Amplificador nas costas

Em julho de 1986, o falecido jornalista cultural Aramis Milarch escrevia no jornal O Estado do Paraná que a banda Metal Pesado, com sua "proposta radical", tinha "15 músicas no seu repertório, inspiradas no som de Ozzy Osbourne e AC/DC." "O conjunto tem um sonho: ser descoberto e sair de Curitiba. Mas como todos trabalham, fica difícil a busca do sucesso sem a ajuda de um bom produtor ou de uma gravadora".

Era a sina. Os equipamentos e os instrumentos eram caros e os importados não existiam. Tudo era carregados nas costas, quase sempre de ônibus, para ensaios em salas forradas com caixas de ovos e fotos nas paredes. As apresentações eram raras e muitas vezes em locais sem estrutura, principalmente depois que alguns fãs mais exaltados mostraram seus talentos no TUC e no Teatro Paiol.

O Metal Pesado foi o primeiro grupo do gênero a ganhar destaque na cidade, por volta de 1984. Também havia o Cavaleiros do Apocalipse, o Trilha e o Garra, as duas últimas com propostas menos pesadas. Em 1986 surgiu o Epidemic, pioneiro do thrash metal local. Outras bandas apareceram com propostas mais radicais, como Masmorra, Scarnio e Funeral, uma das pioneiras do death metal.

Na mesma época emergiu o Infernal, que gravaria vários CDs na década seguinte. Foi a primeira banda curitibana de metal a romper a barreira, excursionando pela Europa. No fim da década de 80 ainda surgiram bandas de black metal, como Amen Corner e Murder Rape, que também gravaram e se consolidaram na década seguinte. Outros grupos de thrash, como Holy Death, Defamer e Septic Death, tiveram vida mais curta.

Já nos anos 90, mas com remanescentes da década anterior, surgiu o death metal do Imperious Malevolence, que lançou vários trabalhos e também excursionou pelo velho mundo. Recentemente, voltou com nova formação e lançou um novo CD, "Doomwitness". Também nos 90 apareceu o power metal do Dragonheart, que emplacou uma boa sequência de CDs entre 2000 e 2005.

Extintor e quebra-quebra

A história dos shows de heavy metal em Curitiba começou oficialmente no TUC, onde a plateia costumava acionar extintores e por abaixo os frágeis assentos de madeira. Os festivais organizados entre 1984 e 1987 reuniam bandas como Trilha, Garra, Epidemic, Scarnio e Masmorra. Em 1987, um show do Epidemic terminou com um saldo de demolição: os fãs se amontoavam e se debatiam sobre os assentos, que foram ao chão. "Tivemos que voltar lá no outro dia, com martelo na mão, e consertar as cadeiras", lembra o baixista Alexandre Baldon.

O Paiol também recebia shows de bandas pesadas, mas logo a turma toda foi convidada a se retirar do circuito. A saída foi migrar para casas noturnas sem estrutura, como a que recebeu um festival com Funeral, Defamer, Epidemic, Scarnio e Morthal (de Foz do Iguaçu). O Parque São Lourenço também abrigou festivais com bandas locais e de fora, como MX (Santo André) e Witchammer (Belo Horizonte).

Outros momentos que marcaram a época foram a apresentação do cultuado Vulcano, de Santos, em algum lugar do Boqueirão, com abertura de bandas locais; e um festival ao ar livre no Centro Politécnico da UFPR, que reuniu Epidemic, Defamer e Sacramento em meio a bandas e músicos de outros estilos. Foram os últimos grandes atos de uma era.

Lelo Iurk, guitarrista e vocalista do Scarnio, conta que o grupo acabou por falta de dinheiro e de um baterista. O Scarnio foi criado em 1987 e era cultuado entre os batedores de cabeça curitibanos, mas não sobreviveu ao início dos anos 90. Deixou a demo-tape "Overhear", de 1989. "Tivemos problemas financeiros e dificuldades de encontrar um baterista, já que o Dirceu tinha saído no começo de 1991", lembra Iurk.

Dessa primeira leva, o Epidemic foi quem chegou mais perto de romper a barreira local e deixar um registro em LP. O que teria acontecido se o grupo tivesse gravado naquela época? Seria cultuado como ainda são outras bandas brasileiras que deixaram registros ainda nos 80, como a carioca Dorsal Atlântica? "A meta era o Sepultura", diz o ex-baixista do Epidemic, Alexandre Baldon, citando o grupo mineiro que abriu as portas mundiais para as bandas brasileiras. Lançado em 1987, o terceiro álbum da banda de Belo Horizonte, "Schizophrenia", foi um salto histórico para o metal produzido no país.

O Epidemic deixou três demo-tapes. Lançado em 1989, o último registro em estúdio, "The Black Mellowed Into Grey", quase virou LP, lembra Baldon, pelas mãos de Rolando Júnior, baterista da Patrulha do Espaço, banda paulistana dos anos 70. Quis o destino que a bem elaborada gravação não virasse vinil. E uma parte da história ficou por ser contada.

No circuito

Em 25 de agosto de 1996, uma edição do Festival Monters of Rock, no estádio Couto Pereira, reuniu os gigantes Motörhead e Iron Maiden. No dia 11 de outubro do mesmo ano, o AC/DC detonou seus canhões em show histórico na pedreira Paulo Leminski. Estava aberta a temporada do metal internacional em Curitiba.

Desde então, algumas centenas de bandas de vários países e estilos já passaram pela cidade - incluindo algumas que só apareciam nos fanzines e nas paredes da Música Viva. Casas especializadas em shows abriram suas portas e as confusões acabaram. "É um público que não dá problemas, que vai para ver o show mesmo", avalia Fabio Aguayo, proprietário da Music Hall, que tem cerca de 50% de sua programação preenchida por grupos de metal, punk e hardcore. Bares se especializaram em música pesada, pois as bandas locais se proliferam. A história cresceu e ainda está sendo escrita.

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