Em um texto para a revista Medusa, publicado em 1999, Rodrigo Garcia Lopes assumiu a tarefa de apresentar Jerome Rothenberg: "Uma das figuras-chave da vanguarda norte-americana contemporânea, dublê de poeta, professor, editor, performer e tradutor". Hoje com 75 anos, ele se tornou conhecido e respeitado por lançar luz sobre produções poéticas pouco conhecidas ou totalmente desconhecidas de povos e tribos.
Do interesse nos índios Sêneca, com quem viveu durante anos na década de 70 em uma reserva no estado de Nova Iorque , Rothenberg cunhou o termo "etnopoética", que se refere "a uma tentativa de investigar numa escala transcultural o alcance das possibilidades da poesia que não só haviam sido imaginadas como praticadas por outros seres humanos".
Rothenberg é um dos dois destaques do Curitiba Literária no horário nobre de hoje o outro é o Paiol Literário com Luiz Vilela.
O americano um dos últimos autores vivos da geração beat fará uma performance unindo literatura e música, além de conversar com o público sobre a Etnoliteratura e autografar o livro Etnopoesia no Milênio, lançado pela Azougue no ano passado com tradução de Luci Collin.
Já o mineiro Luiz Vilela participa do evento promovido pelo jornal Rascunho e vem a Curitiba derrubar o mito de que é recluso. Autor de Bóris e Dóris (Record), ele conta que já terminou o seu aguardado romance "épico de inspiração bíblica" Perdição, sobre um jovem pescador abordado por dois pastores de uma nova religião que o convencem a virar um pregador. O jovem viaja para a capital e acaba fazendo dinheiro com a fé alheia, e volta a sua cidade natal para experimentar a decadência moral e física.
"É um negócio do tipo 'ascensão e queda'", explica Vilela. A expectativa em torno do romance, que deve sair no ano que vem, se deve em parte pelo perfeccionismo do autor. "O texto está concluído e agora é o trabalho de lapidação", diz, admitindo que esse momento é crucial porque se sente capaz de reescrever um texto inúmeras vezes, sem nunca considerá-lo pronto.
O livro faz referência ao episódio bíblico de Pedro, o pescador transformado em apóstolo por Jesus Cristo. Vilela conta que o livro fará jus à fama de suas histórias que sempre acabam de modo trágico. E diz que a citação à Bíblia nada tem a ver com afetações "pós-modernosas" ("Acho isso uma chatura") e funciona mais como um ponto de partida para o enredo.
Desnecessária
"Essa pergunta é terrível e eu não tenho a resposta", diz Vilela ao ser questionado sobre para que serve a literatura, idéia que costuma abrir todas as edições do Paiol Literário. "Penso que a resposta é desnecessária e que nunca me fez falta."
Vilela tem 64 anos, é um entusiasta dos eventos literários e acha que qualquer iniciativa que procura divulgar a literatura "se justifica". Porém, defende que "nada substitui o contato do leitor com os livros". Embora goste do retorno dado pelos leitores, não é nem um pouco ansioso por tecnologias que tornem essa relação mais fácil ou freqüente demais. "Terceirizei tudo", brinca. Não usa celular ("É uma coleira"), não tem computador nem e-mail. Escreve seus livros somente à mão e, depois de terminar a primeira versão, entrega para alguém digitá-la. Dessa forma, acredita que consegue ter os benefícios da tecnologia sem aturar a dor de cabeça que a acompanha.
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Serviço: Curitiba Literária. Etno-literatura com Jerome Rothenberg. Tenda da Praça Osório. Hoje, às 19 horas. Entrada gratuita.
Paiol Literário com Luiz Vilela, mediado por José Castello. Teatro Paiol (Pça. Guido Viaro, s/ n.º), (41) 3213-1340. Hoje às 20 horas. Entrada gratuita.



