
A tecnologia incessante, o estar eternamente on-line e suas consequências parecem ser o grande tema desses dias em que um tweet às vezes vale mais do que mil palavras. Seja na mesa de bar quando não teclamos ao celular ou em um disco, como fez o eternamente ocupado Damon Albarn em Everyday Robots, enfim seu primeiro trabalho solo.
Mesmo no auge do britpop, nos anos 1990, as músicas do frontman do Blur sempre tiveram aquela melancolia controlada e até pegajosa. No Gorillaz, projeto musical e visual de maior sucesso comercial, Damon parecia se divertir ao brincar com as possibilidades da tecnologia. Homem de mil interesses, o inglês também cedeu ao exotismo e gravou com músicos do Mali e do Congo além de coassinar duas trilhas sonoras. Mas foi agora, aos 46 anos, que um álbum enxuto, e ao mesmo tempo elegante e modesto, colocou Damon Albarn em um outro papel, ao menos por enquanto: o de um habilidoso criador de contextualizadas canções.
Comece pela capa. Sobre um fundo cinza e sentado num banquinho, há um Albarn cabisbaixo e relutante, como se tivesse acabado de contar uma piada sem graça. As músicas seguem esse trajeto dúbio e provocador e, no fim das contas, com melodias arrebatadoras, acabam esbarrando de forma original em seus trabalhos anteriores.
Um piano embala o trip-hop de "Everyday Robots", em que Damon canta letargicamente "Somos robôs do dia a dia em nossos telefones". A desumanização causada pela tecnologia parece assombrá-lo. Movido a beats, o ótimo single "Lonely Press Play" é mais claro nessa pequena guerra particular, que parece já estar perdida apesar de a própria música surgir como solução: "Se você estiver sozinho, aperte o play."
Com arranjos tropicais, "Mr. Tembo" quebra o gelo e fala carinhosamente sobre um filhote de elefante que Damon encontrou na Tanzânia pois é. A irônica "The Selfish Giant" tem um refrão tristemente assoviável. "É difícil ser um amante quando a tevê está ligada."
O tema da ausência de comunicação, apesar das tantas possibilidades, atinge o ápice em "You and Me", que, com a ajuda de um beat controladamente espaçado e atonal, cria uma angustiante sensação de contagem regressiva.
Com produção de Richard Russel e participação de Brian Eno em "Heavy Seas of Love", a música mais "inglesa" do disco, Everyday Robots é surpreendentemente coeso e, por tratar de um tema específico, chega perto de ser um álbum conceitual. É, enfim, mais uma importante engrenagem nesse motorzinho musical chamado Damon Albarn. GGGG




