
A dança contemporânea, nascida no século 20, a partir das perguntas e não necessariamente das respostas, perde, em um intervalo de um mês, dois de seus mais notáveis ícones: a alemã Pina Bausch (em 30 de junho) e o norte-americano Merce Cunningham (em 27 de julho)
A história da dança, a exemplo do que acontece com outras linguagens, é fortemente marcada por contínuas rupturas. A uma estética ou proposta sucede-se outra e, às vezes, de forma tão diferenciada que aos espectadores cabe sempre a pergunta: mas isso é dança?
Existem momentos nos quais o simples exercício da pergunta é mais importante do que as respostas, em que a dança transcende a realidade. A matéria ordinária da vida, dos gestos cotidianos, se deixa ver por fora e por dentro: significados e sentimentos, formas e afetos viram traduções um do outro.
A dança contemporânea, nascida no século 20, a partir das perguntas e não necessariamente das respostas, perde, em um intervalo de um mês, dois de seus mais notáveis ícones: a alemã Pina Bausch (em 30 de junho) e o norte-americano Merce Cunningham (em 27 de julho).
Tanto Bausch quanto Cunningham propuseram e instigaram o "alargamento das fronteiras" entre as artes, voltando-se mais à pesquisa e experimentação da dança, como linguagem e "pensamento do corpo". Entretanto, muitas diferenças existem entre os dois criadores, no que se refere aos processos e aos modos de organização do corpo em movimento na cena.
Pina Bausch estava interessada no que move as pessoas e não em como elas se movem. Nas relações afetivas entre o homem e a mulher. Cunningham, por sua vez, definia dança como "movimento no tempo e no espaço". Interessavam-lhe as relações formais, sem hierarquia espacial, entre os corpos em movimento.
O que unia estes artistas, porém, pode ser descrito a partir de algumas ideias inerentes à dança contemporânea: o rompimento com as estruturas clássicas; o fato de não existir uma técnica específica no preparo corporal, nem um corpo ideal; a preocupação com o trânsito entre as diferentes linguagens; o recurso da improvisação na geração de sequências e encadeamento de movimentos; e levar o público a pensar, a participar do processo de leitura da obra, sempre aberta.
Trajetória dela
Algumas considerações acerca da trajetória destes criadores. Se, por um lado, o formalismo se desenvolveu mais entre os americanos, a linguagem se desenvolveu mais sugestivamente (e este movimento não foi unilateral) da relação com o teatro. Deste encontro, que não é uma soma, é uma fusão, surge a dança-teatro.
Pina Bausch, sinônimo de dança-teatro, nasceu em Solingen, em 27 de julho de 1940, e iniciou seus estudos em dança na Folkwangschule, sob orientação de Kurt Jooss. Em 1959, premiada com uma bolsa de estudos, vai para Nova York estudar na Julliard School, passando a integrar importantes companhias de dança. Em 1962, ao retornar à Alemanha, atua como primeira bailarina do recém fundado Folkwang-Ballets. Quando mais tarde, foi contratada como chefe do Departamento de Dança do Ballet de Wuppertal, Bausch redefiniria o nome da companhia e de seu futuro estilo coreográfico: nascia o Tanztheater Wuppertal o teatro de dança de Wuppertal. Mas, no que consiste esta modalidade?
A dança-teatro não se utiliza de regras, códigos nem poses pré-determinadas. Os movimentos não são inventados: são extraídos do dia a dia, do cotidiano. Não há uma lógica de narrativa: a ação é formada por episódios conectados pelo estado de espírito e pela colagem e repetição de ações e diálogos. Cada obra coreográfica se faz por meio de laboratórios de improvisação onde os intérpretes respondem corporalmente a "perguntas", que podem ser tanto descritivas (O que você viu na rua?) como pessoais (Do que você tem medo? O que lhe dá prazer?) ou abstratas (felicidade, solidão, morte). As "respostas" faladas e corporalizadas podem ou não ser aproveitadas.
Bausch selecionava gestos e alterava-lhes a configuração, construindo as sequências, os episódios e a obra em si. Embora o ponto de partida seja a improvisação, na cena, não há espaço para tal: tudo é rigorosamente organizado e o tempo da ação não é entregue ao acaso. A música é agregada à obra posteriormente. Todo o tipo de música.
O ambiente de atuação é sempre um componente inusitado: o palco por vezes é coberto de terra, água, folhas secas, grama, flores, demonstrando como Bausch trabalhava com o alargamento de fronteiras. Vale ressaltar a sua atuação em obras de importantes cineastas: Almodóvar (Fale Com Ela) e Fellini (E La Nave Va).
Destacam-se suas coreografias: A Sagração da Primavera (1975), Barba-Azul (1977), Café Muller (1978), Árias (1979), Bandoneón (1980), Cravos (1982), Mazurca Fogo (1998), Pradaria (2000).
Trajetória dele
Ao romper com o matriarcado característico da dança moderna, Merce Cunningham tornou-se o grande inovador desta linguagem, na segunda metade do século 20.
Cercado dos mais influentes artistas da contemporaneidade, como Jasper Johns, Marcel Duchamps, Andy Wharol, Max Ernst, Frank Stella, Robert Rauschemberg, Nam June Paik e John Cage, imprimiu à dança a interação interdisciplinar no mesmo espaço-tempo, sem que uma linguagem fosse dependente ou desse suporte à outra. Introduziu o conceito de acaso e aleatoriedade na dança, chegando, até mesmo, a sortear as sequências minutos antes de os bailarinos entrarem em cena, nas obras que denominava "events".
Nascido em Centrália, Washington, em 1919, iniciou-se na dança em Seattle, no Cornish School. Foi solista de Martha Graham (1939-1945), mas logo afirmou a originalidade de seu trabalho num trabalho solo com o compositor John Cage, em 1944, iniciando sua trajetória polêmica.
Nos anos 30 a 40, uma instituição americana, o Black Mountain College, na Carolina do Norte, tornava-se o centro de experimentação, produção e difusão de novas ideias sobre arte. Cage e Cunningham entraram em contato neste local com diversos artistas, o que acabou por definir o aspecto interdisciplinar de sua dança. Em 1953, cria a Merce Cunningham Dance Company, ativa até hoje.
Na década de 50, Cunningham começou a utilizar os procedimentos de "acaso" nas composições, após ter lido o I-Ching e se tornando adepto do zen-budismo. Já que o movimento e o som eram independentes, Cunningham sempre usava como leitmotiv o movimento em si mesmo, deixando de lado a preocupação com o conteúdo e a narrativa. Tudo o que existia eram corpos se movendo no tempo e no espaço: sem personagens, sem caracterização, sem emoção.
Com a finalidade de encontrar novas maneiras (matemáticas) de se mover, as operações de acaso e simultaneidade foram levadas para o corpo dos bailarinos: ao jogar moedas ou dados, estabelecia-se um movimento para a cabeça, independente do torso, depois braços e pernas, compondo, assim, sequências aleatórias.
Nos anos 60, se iniciam suas experimentações com a videodança em parcerias com Charles Atlas e com Nam June Paik. A partir dos anos 80 e 90, utiliza os recursos tecnológicos, como o LifeForms (software de animação da figura humana em três dimensões), permitindo a ampliação de suas possibilidades combinatórias de movimentos. Dentre suas obras, destacam-se: Points in Space (1986) e Beach Birds for Camera (1991).
Legado
A dança contemporânea, em sua pluralidade de caminhos, deve muito às inovações e trânsitos entre as fronteiras artísticas, propostos por Merce Cunningham e Pina Bausch. Nem sempre compreendidos, foram, entretanto, propositores e executores de ideias originais e controversas.
Pode-se afirmar que, juntos, envolveram em seu fluxo incessante artistas e plateia, jamais deixando de desafiar-nos com seus experimentos e descobertas. O mundo da dança, portanto, rende homenagem a dois artistas que fizeram da dança um ato essencial do pensamento de seu tempo.
Cristiane Wosniak é mestre em Comunicação e Linguagens, historiadora e pesquisadora de dança.



