Ele tinha apenas 21 anos quando decidiu largar as mordomias de sua família endinheirada no Reino Unido para embarcar no H.M.S. Beagle. Era 4 de julho de 1831. Cinco anos e 36 dias depois, o jovem Charles estava a caminho de produzir uma das obras mais importantes do universo e se tornar o Darwin dos livros de História. Durante essa viagem iniciática pelo Hemisfério Sul da Terra, fez várias anotações no que ficou conhecido como O Diário do Beagle (Tradução de Caetano Waldrigues Galindo. Editora UFPR, 526 págs., R$ 55).
"Universo" aqui não é apenas uma força de expressão. No posfácio da obra, o biólogo Fernando Fernandez, doutor em Ecologia pela Universidade de Durham (Inglaterra), cita o evolucionista Richard Dawkins para afirmar que "um visitante extraterrestre certamente teria mais interesse em discutir as idéias de Darwin do que as de pensadores como Freud e Marx a quem ele já foi comparado".
Pela primeira vez traduzido para o português na íntegra antes da edição pela UFPR havia somente seleções e trechos da obra disponíveis em livro , O Diário de Beagle mostra Charles Darwin (1809 1882) se exercitando para escrever A Origem das Espécies quase duas décadas mais tarde. "Não existe nenhuma outra idéia tão importante para a humanidade que seja tão mal conhecida quanto a evolução", diz Fernandez. Segundo o professor, existe um erro recorrente cometido por quem conhece pouco ou nada do trabalho de Darwin, o de achar que a teoria da evolução é isso: apenas teoria. "Que ocorra a evolução é um fato científico, (...) pelo menos desde as primeiras décadas do século 20".
Foi a bordo do Beagle que Darwin, na condição de geólogo representante da coroa britânica, observou e se embasbacou com um mundo que, à época, era tão improvável para um europeu quanto o é a vida em outros planetas para o homem atual. "A América do Sul foi, de longe, o continente que mais contribuiu para as observações que deram origem às idéias e teorias de Darwin", escreve Fernandez.
Entre os registros mais pitorescos, estão o encanto pelo Haiti, a interação com os gaúchos da Patagônia e a tão comentada passagem pelo Brasil. No dia 3 de julho de 1832, saindo do Rio de Janeiro, o cientista escreveu: "Acredito que os escravos sejam mais felizes do que esperavam ser ou do que as pessoas na Inglaterra pensam que eles sejam. Receio no entanto haver muitas e terríveis exceções. O principal traço de seu caráter parece ser um ânimo e uma alegria maravilhosos, uma boa natureza e um coração firme misturados a um bom pouco de obstinácia. Espero que chegue o dia em que eles garantam seus próprios direitos e esqueçam-se de vingar o que se lhes fez".
Para o tradutor Caetano Waldrigues Galindo, impressiona ver como "um bom observador pôde perceber há 170 anos as mesmíssimas coisas que nos emperram e como deixar de pensar, então, que elas na verdade nos condenam até hoje". São também curiosas as evidências do quanto o naturalista era "um homem do seu tempo", muito distante do politicamente correto que hoje envolve as questões ecológicas.
"Há um trecho em que ele e os marujos efetivamente provocam um genocídio de aves em uma ilhota do Atlântico, em busca de carne e ovos. Ele se desmancha em elogios a um animal e em seguida declara: abatemos dois deles. E veja bem, era o único jeito de ele estudar os bichos", explica Galindo.
A publicação de O Diário de Beagle tem uma história bastante "prosaica", relatada pelo editor Luís Gonçales Bueno de Camargo.
Em 1988, trabalhando na Folha de S.Paulo, Camargo era responsável pela programação de tevê e lembra de ter se interessado por uma série da BBC, exibida pela TV Cultura, sobre a viagem de Darwin no Beagle. Por causa do jornal, não conseguiu assistir aos documentários, mas foi atrás de uma tradução do Diário... e achou absurdo que não existisse nenhuma. Quase 20 anos depois, propôs a obra para a Editora UFPR.



