
Conhecer Mauro Zanatta depois de vê-lo no palco é se atordoar diante de um mistério. Você olha para o ator e se pergunta onde está o personagem que viu no teatro? Na entonação de voz num fim de frase? Num jeito específico de caminhar?
Em 2008, ele adaptou Esperando Godot, de Samuel Beckett, com Rosana Stavis e direção de Flávio Stein. A montagem deu à obra do escritor irlandês o tratamento que ela merece. Não faltou nada: estavam lá a angústia, a solidão e o humor.
Montar Godot é, de certa forma, escalar uma das montanhas mais altas do teatro mundial. Zanatta a encarou e saiu da experiência transformado. Na verdade, ele parece escolher suas peças pela possibilidade que tem de ser fulminado por elas.
"O que me interessa é sair do aspecto espetacular do teatro e chegar a questões mais humanas", afirma o ator de 48 anos, 27 de profissão. Tanto é assim que diz não se interessar por peças estruturadas sobre o que chama de "truque". São as montagens que se preocupam mais com o cenário, a iluminação e o efeito especial, esquecendo a história, a estrutura narrativa e os atores.
"O cinema dá essa possibilidade", diz Zanatta, sobre as proezas técnicas. "No teatro, o que há é a reminiscência do humano. Truque é perda de tempo."
Em junho, ele deve apresentar o monólogo Menestrel, no Teatro José Maria Santos, com texto próprio inspirado pelas imagens do fotógrafo Valdir Silva, uma testemunha ocular da história do teatro nacional, registrando momentos-chave de várias atrizes e atores, de Paulo Autran a Antônio Fagundes.
Um mês antes, em maio, ele leva ao Mini-Guaíra a peça Super-homens, a resposta masculina para Mulheres Espetaculares, apresentada no ano passado. Dirigida por Zanatta (sim, ele consegue bater escanteio e correr até a pequena área para cabecear), a montagem aborda seis tipos de mulher, da "normal" à "acadêmica".
Os dois espetáculos são resultados do trabalho da Estufa Cultural, um grupo de 20 atores e pesquisadores ligados à Companhia do Ator Cômico, de Zanatta. "O objetivo é lançar várias ideias e possibilidades para o teatro", explica. As propostas "descansam" por um tempo daí a ideia de estufa até o grupo encontrar meios para desenvolvê-las.
Além de escrever, atuar e dirigir, o catarinense de Concórdia fundou há 15 anos uma escola pela qual passaram 352 alunos, entre eles, Simone Spoladore (Lavoura Arcaica) e Fabio Lins (um talento do stand-up comedy). A escola está na origem da companhia teatral, que surgiu dez anos depois, em Curitiba.
Em 2010, pela primeira vez em uma década e meia, ele vai interromper as aulas por um semestre, pois precisa de tempo para dar cabo de todos os projetos que assumiu.
Faltou citar um. Em outubro, no Teatro da Caixa, ele vai encenar Noite de Reis, de William Shakespeare. Também do dramaturgo inglês, mas sem data para estrear, Zanatta espera criar uma versão de Hamlet em que fará todos os personagens ao passo que a história se desenrola com a ajuda do público.
Paranoias
"Nós somos resultados de nossas neuroses e paranoias", diz. Exemplo: entre 1987 e 92, vivendo em Londres, Zanatta foi convidado para trabalhar no estúdio de Jim Henson, o criador dos Muppets. A chance surgiu depois que o filho de Henson viu um espetáculo de mímica estrelado pelo brasileiro. Desinteressado pela indústria, ele preferiu voltar ao Brasil e fundar uma escola.
O episódio reflete sua opção pelo que há de humano no trabalho de um ator e é evidente nos profissionais que admira: Osmar Prado (Desmundo, de 2002) e Dustin Hoffman (Morte de um Caixeiro Viajante, de 1985), dois dos profissionais em quem "confia".
Para a atriz Cris Bachmann, uma das Mulheres Espetaculares, a característica mais forte do trabalho de Zanatta é a "verdade". Uma vez no palco, ele não atua, ele é. Cris o descreve como "uma pessoa extremamente sensível".
"Ele tem uma genialidade de criação, é um ator muito criativo e generoso em cena", diz Rosana Stavis, que fez o Vladimir em Esperando Godot. Ela explica que a empatia durante uma encenação, com a possibilidade de olhar nos olhos e de responder a estímulos, é algo raro entre atores e ela a tem com Zanatta.
Memória
No texto de Beckett, sobre dois sujeitos maltrapilhos que esperam por um certo Godot que nunca chega, Zanatta foi Estragon e fez uma composição impressionante, alterando a voz e o modo como se movia, e imprimindo uma musicalidade peculiar à fala do personagem. As frases de Estragon ressoavam na memória de quem viu a peça dias e até semanas depois da apresentação.
Olhando para uma árvore, Gogô dizia para Didi: "Amanhã, me lembre de trazer uma corda", sugerindo um fim trágico para a espera que não acaba nunca.
Talvez sob a influência de Beckett, a lição que Zanatta procura passar aos alunos é a de não se preocupar com o futuro e o passado. Faz sentido: se viver o presente, você alivia a angústia da espera.







