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Teatro

Denise Stoklos e as rainhas

Mary Stuart é eleita para comemorar os 40 anos de carreira da atriz paranaense; peça será apresentada no próximo sábado, no Teatro Positivo

Denise Stoklos reencena o solo que estabeleceu as bases do teatro essencial, 22 anos depois | Divulgação
Denise Stoklos reencena o solo que estabeleceu as bases do teatro essencial, 22 anos depois (Foto: Divulgação)

Mary Stuart foi um divisor de águas na carreira de Denise Stoklos. Aos 34 anos, a paranaense de Irati ganhou uma bolsa da Fullbright Comission que escancarou para ela as cortinas do teatro La Mama, renomada casa nova-iorquina aberta a performances internacionais vanguardistas.

A atriz faria a temporada pa­drão de três semanas com o solo sobre a rainha da Escócia e sua rival inglesa, Elizabeth. O jornal The New York Times de 24 de fevereiro de 1987 se derramou em elogios à performer brasileira: "mímica maravilhosa", "sua evocação das rainhas é provocativa, divertida e causa perplexidade". A aclamação se traduziu em um convite para esticar a temporada por mais cinco semanas – e voltar ao teatro com seus outros trabalhos todos os anos desde então.

Mais do que legitimá-la internacionalmente, o espetáculo sedimentou as bases do teatro essencial, técnica centrada nas possibilidades do performer – o corpo, a voz e o pensamento –, que nortearia toda sua produção. "Foi nessa época que escrevi o manifesto do teatro essencial. Foi um momento muito especial para mim, usava todas as possibilidades do teatro essencial que haviam se mostrado até então, como uma iniciante, com o entusiasmo de quem sabe de tudo", disse por telefone à reportagem.

Por ter sido tão marcante, Mary Stuart foi a montagem eleita por Denise para comemorar seus 40 anos de carreira, com uma apresentação no próximo sábado, no Teatro Positivo. Coincidentemente, esta será a terceira vez que o confronto das duas soberanas do século 16 será apresentado ao público curitibano este ano. As atrizes Isabel Teixeira e Georgette Fadel, comandadas por Cibele Forjaz; e Júlia Lemmertz e Clarice Niskier, dirigidas por Antônio Gilberto, mostraram suas abordagens para a história durante o Festival de Curitiba, com diferentes graus de intervenção no texto clássico do poeta alemão Friedrich Schiller (1759-1805).

No caso da obra de Denise Stoklos, a dramaturgia parte de uma variedade de textos consagrados sobre as duas figuras históricas para expor as observações e críticas da criadora sobre o modo como o Estado atua na vida do indivíduo. Já que, lembrando que Mary é condenada à morte por ordem da prima Elizabeth, o poder político definiu o destino de ambas.

"O teatro é sempre uma batalha, porque está instalado dentro de um sistema de completo domínio do ser humano. Até votar, só nos foi permitido quando se conseguiu inventar um sistema em que não seria uma escolha do indivíduo, mas de quem está no poder. É tudo falta de opção, que nos deixa cada vez mais para trás, com menos possibilidades de crescimento. A única e fatal possibilidade é o teatro, é um dos fatores da democracia mais expressivos", argumenta a atriz. "No teatro essencial, é muito simples: quem escreve a peça é o público. Ele faz a leitura."

Em uma hora e quinze minutos, Denise se alterna entre o cômico e o trágico, explorando seus dotes de mímica e o uso da voz. Não se prende ao período histórico ou a uma cronologia linear, nem ao território europeu onde as duas mulheres viviam. A peça começa com a prisão de Mary em uma masmorra vivificada pelas mãos de Stoklos, que percorre as paredes, até que o "cenário" mude de repente para a corte elizabetana. Ou a uma situação de poder análogo ocorrendo quatro séculos mais tarde.

Serviço

Mary Stuart. Teatro Positivo – Grande Auditório (R. Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300 – Campo Comprido), (41) 3317-3107. R$ 54 (inteira) a R$29. Dia 1º de agosto, às 21 horas.

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