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DVD

Dentro de um pesadelo

Versátil lança A Hora do Lobo, um clássico do sueco Ingmar Bergman que explora a desilusão e a solidão causados por uma relação desfeita

A Hora do Lobo é tido como o único filme gótico de Ingmar Bergman (1918-2007). Mas é necessário precisar os termos. Ele faz parte de uma série de experimentações do cineasta sueco e encontra-se entre Persona (1966) e Vergonha (1967), este também recém-lançado no mercado de DVD pela Versátil.

Nos filmes, Bergman se dispõe a explorar o atormentado mundo interior dos seus personagens, mais fundo até do que até então fizera. É uma tendência do artista, que se encontra aqui em seu ponto mais exacerbado.

Como se sabe, Bergman, vítima de uma educação religiosa muito rígida na infância, expressa em sua obra o debate sobre o silêncio de Deus e o estende à questão do casal. O desamparo humano, solitário diante de um suposto criador que não lhe responde, encontra outra face do seu desespero na ilusão sempre desfeita do casal.

O que poderia ser encontro, fusão, preenchimento, torna-se de maneira muito rápida desilusão e uma solidão ainda pior. É uma cosmovisão que se desdobra em obras tão diferentes como Cenas de um Casamento (1973) e A Hora do Lobo (1968).

A história é a de um pintor, Johan (Max Von Sydow), e sua esposa grávida, Alma (Liv Ullmann), que se retiram para uma ilha isolada, porém povoada de estranhos seres. Ele tem a sua obra para fazer e ela, um filho para esperar. Sabemos desde o início que, em determinado momento, Johan sumiu para nunca mais aparecer.

Quem nos conta isso? Alma, olhando diretamente para a câmera, nos dizendo explicitamente que aquilo é um relato, um filme, quer dizer, um artifício, e que o que iremos ver é algo encenado por atores.

Antes mesmo de Alma falar, o filme nos informa que tudo aquilo que iremos ver é baseado num depoimento (o da própria mulher) e nos diários deixados por Johan. Há então, além do distanciamento, uma história de mistério a ser contada.

A história tem a ver, basicamente, com o enfrentamento de Johan Borg com seus próprios fantasmas. Ou assim se pode deduzir, já que, para Johan, esses fantasmas parecem bem reais – quer dizer, exteriores a si mesmo. O filme é fotografado em um preto-e-branco magnífico por Sven Nykvist, colaborador em várias obras-primas de Bergman. E é esse registro que empresta o tom fantasmagórico a certas passagens. Uma delas, talvez a mais assustadora da obra de Bergman, quando John é atacado na praia por um menino, ou alguém que parece ser uma criança. Cena angustiante de perigo iminente e depois agressão.

Há outras sequências impressionantes no interior do castelo dos nobres habitantes da ilha. Numa delas, grotesca, uma mulher muito velha retira sua peruca, seu rosto se desfaz enquanto ela retira um olho de vidro e o coloca num cálice, à frente de um espantado Johan. Outra, quando ele vê o corpo de sua antiga amante morta, Verônica Vogler, recobrar vida diante dos seus olhos. É tudo assustador e tudo extraordinário, como se Johan vivesse no interior de um pesadelo e o partilhasse conosco de maneira muito radical.

O radicalismo é expresso de maneira muito interessante num dos extras do DVD, a entrevista com a atriz Liv Ullmann, feita muitos anos depois. Na época, Liv vivia na Noruega e estava grávida de sua filha com Bergman. O cineasta a chamou para um filme chamado Os Canibais. Liv não topou. Achou que não tinha condições de filmar "aquilo". Bergman então lhe disse que viesse, pois iria arrumar um novo projeto. Mas tudo o que fez foi dar uma garibada em Os Canibais e transformá-lo em A Hora do Lobo. Liv conta que não deveria ter cedido aos pedidos do cineasta, que este a obrigou a fazer coisas que uma gestante não faz.

Serviço

A Hora do Lobo (Vargtimmen. Suécia, 1968). Direção de Ingmar Bergman. Com Max Von Sydow e Liv Ullmann. Versátil. Preço médio: R$ 44,90. Classificação indicativa: 18 anos.

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