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Cinema

Depois de ganhar o Oscar, roteirista Charlie Kaufman estreia na direção

"Sinédoque, Nova York" chega aos cinemas neste fim de semana. Kaufman é autor de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças"

Charlie Kaufman é, provavelmente, o roteirista mais importante dos EUA hoje em dia. Autor dos scripts de filmes como "Quero ser John Malkovich", "Confissões de uma mente perigosa" e "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (que venceu o Oscar de melhor roteiro), ele havia sido considerado mais "autor" dessas obras que os próprios diretores (respectivamente Spike Jonze, o galã Geoge Clooney e Michel Gondry).

Entretanto, suas relações com os cineastas não foram sempre boas. Kaufman não gostou, por exemplo, de mudanças que Clooney teria feito em seu texto e os dois tiveram uma briga séria. Era uma questão de tempo para que ele assumisse a direção de seus longas. Aconteceu, finalmente, com "Sinédoque, Nova York", que estreou na sexta-feira (17).

Sinedo... quê?

O professor Sérgio Nogueira explica que sinédoque é uma figura de linguagem da família das metonímias (quando se usa uma palavra fora do seu sentido básico por associação de ideias). Ele dá exemplos: "O homem (= humanidade) deve respeitar mais a natureza", "Precisa de mais braços (= trabalhadores) para desenvolver a sua lavoura", etc.

O filme em si pode ser resumido em poucas palavras, porém que não dão conta do todo da história, mais no terreno das sensações que das ações. Há um nexo, um sentido, mas Kaufman está mais focado nas ideias que no explicar direitinho o que acontece.

No material de divulgação do longa, Kaufman defende seu filme dizendo enigmaticamente que "uma das coisas mais empolgantes e divertidas em ser parte do público é sacar as coisas". Depois dá a dica para entender a produção: "o filme não é um sonho, mas sua lógica é parecida com a de um sonho", como aliás já era o "Brilho eterno...".

Hoffman é o protagonista

No filme, Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) é um diretor de teatro que entra em depressão quando descobre que a sua mulher não tem perspectiva de voltar de uma viagem ao exterior. Ao mesmo tempo, ele recebe uma bolada para montar uma peça e decide criar um trabalho de "brutal honestidade". Na verdade, retrata sua vida, com direito a um duplo e até a um "triplo", no palco.

Kaufman já tinha feito algo parecido com "Adaptação", mas com o viés de comédia. No filme dirigido por Jonze, o então roteirista retrata a si mesmo, além de um irmão gêmeo inexistente na vida real, na aventura que é transportar um livro complicado para o cinema. Agora, ele entra fundo num drama existencialista em que Cotard, o diretor de teatro, procura desesperadamente um rumo na vida.

O filme, entretanto, sofre da falta de direção, como, aliás, a peça que se está sendo montada. O que pode até ter sido proposital, fazendo jus ao "sinédoque" do título. Entretanto não consegue um resultado muito interessante quando o assunto é entreter.

No fim do caminho, Cotard, exausto e perdido, se sente satisfeito por não mais precisar tomar decisões e apenas obedecer. Poderia ser uma metáfora para Kaufman, que rende muito mais quando está acompanhado de diretores que o entendem e dão forma para os seus devaneios.

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