
A existência nebulosa de um irmão do outro lado do oceano foi o ponto de partida para o novo livro de Chico Buarque.
A trama mistura dados biográficos e documentais com uma ficção empolgante para retratar a busca (ou o que seria dela) por Sergio Günther, mais conhecido como O Irmão Alemão.
O irmão mais velho de Chico Buarque é fruto do relacionamento de uma alemã identificada como Anne Ernst com o historiador Sérgio Buarque de Holanda, que residiu entre os anos 1929 e 1930 na Alemanha, como correspondente de jornal.
Enquanto, no livro, o autor relata que ficou sabendo da existência do irmão por meio de uma carta escondida entre um dos livros da biblioteca do pai, na vida real a história foi outra: ele só soube da história aos 22 anos.
Estava na casa de Manuel Bandeira em companhia de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, e o poeta pernambucano deixou escapar algo sobre o "filho alemão de seu pai".
Ainda que o maior peso da obra consista na imaginação de como teria sido a busca pelo irmão tanto no Brasil como na Alemanha , Chico não faz uso apenas da ficção.
Trechos importantes que detalha são não apenas reais como foram comprovados pelo próprio autor, que faz uso de documentos da família para reiterar as informações, criando, assim, uma cumplicidade.
Não bastasse o uso das informações, Chico, ao longo das páginas, presenteia o leitor com as próprias imagens dos papéis que comprovam a existência do irmão mais velho. Todos em alemão, batidos à máquina e carimbados um presente para admiradores e investigadores do passado.
E é justamente esta mescla do real com o imaginário, do que foi e do que poderia ter sido que se encontra a mais admirável artimanha narrativa da obra.
Pode ser uma armadilha para leitores menos atentos, ainda que seja definível quando entra em cena a ficção e o fato (que, certamente, não ocupa a maior parte da obra).
A decisão do autor de usar dois mundos paralelos justifica muita coisa. Inclusive o fato de se imaginar correndo atrás de um passado impreciso. Porém, a estratégia ganha ainda mais consistência ao final da obra, quando o próprio personagem, Francisco Buarque, já na Alemanha em busca do irmão, assume a condicional e cria uma das versões possíveis para o encontro tão esperado, como retratado nas duas últimas páginas da obra.
"À medida que a Câmera fechasse em Sergio, mais eu veria nele o rosto oblongo, o nariz de batata e até os óculos do meu pai. (...). E muito me engano e seria o meu o seu bico, quando ele pegasse a assobiar uma triste melodia, num silvo potente e preciso de que poucos são capazes como eu."
Mesmo que seja evidente a curiosidade de Chico Buarque de conhecer seu meio-irmão (a julgar pelo próprio impulso do livro), a vontade parece às vezes sucumbir ao medo. Normal para quem passou 22 anos achando que só tinha seis irmãos.
Em um tom que parece quase uma confissão, o autor expressa a desconfiança pelo sentimento de seu personagem, que se diz preferir continuar a ver o irmão em sonho.
"Penso que vê-lo assim à queima-roupa, com excessiva nitidez, será como ver escancarada na tela de cinema a personagem de um romance que eu vinha adivinhando fio a fio, no tempo da leitura."
Narrado com uma desenvoltura colossal, O Irmão Alemão certifica o sucesso de Chico Buarque na literatura (não que música e literatura sejam artes totalmente distintas).
Como não poderia passar batido, o cenário da obra ganha corpo com a ditadura militar e seus reflexos grotescos e histórias de paixão e romance intrínsecas à história do autor.



