Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
seleção oficial

Desespero e alguma esperança

Pessimismo imperou entre os longas-metragens exibidos na mostra competitiva durante o último fim de semana. Mas houve exceções

L’Apollonide, é um estudo acadêmico de Bertrand Bonello sobre um bordel na Paris da virada do século 19 para o 20 | Divulgação
L’Apollonide, é um estudo acadêmico de Bertrand Bonello sobre um bordel na Paris da virada do século 19 para o 20 (Foto: Divulgação)
Hearat Shulayim gira em torno da disputa feroz de pai e filho no mundo acadêmico |

1 de 2

Hearat Shulayim gira em torno da disputa feroz de pai e filho no mundo acadêmico

The Artist, de Michel Hazanavicius, é um longa-metragem mudo, em preto e branco |

2 de 2

The Artist, de Michel Hazanavicius, é um longa-metragem mudo, em preto e branco

Talvez os diretores andem meio pessimistas, ou talvez seja mesmo o recorte feito pelo delegado-general do Festival de Cannes, Thierry Frémaux. O fato é que a competição do 64.º Festival de Cannes tem mostrado, com raras exceções, o lado duro da vida. Ainda bem que, durante o fim de semana, houve também exceções.

L’Apollonide, o acadêmico estudo de Bertrand Bonello sobre um bordel na Paris da virada do século 19 para o 20, mostra a violência contra as prostitutas e a fixação por determinadas práticas sexuais. O problema é que o diretor de Tiresia e O Pornógrafo trata suas personagens como se fossem participantes de um estudo de caso sobre uma classe trabalhadora, em vez de indivíduos, com dramas pessoais bem desenvolvidos. É tão desprovido de vida quanto uma tese acadêmica.

Outro filme que ficou abaixo da média normalmente apresentada na seleção foi o israelense Hearat Shulayim, de Joseph Cedar, que só se encaixa na seleção por conta de sua temática, a disputa feroz de pai e filho no mundo acadêmico – os conflitos familiares estão em voga neste festival. O diretor tenta esconder o vazio com truques e gracinhas tolos.

Barra-pesada mesmo, daquele tipo que provoca vaias só pelo fato de existir, é Michael, do estreante austríaco Markus Schleinzer, diretor de casting de vários filmes de Michael Haneke. O tom seco é parecido, ainda que o cineasta evite as cenas mais gráficas ao contar a história de um pedófilo. Michael (Michael Fuith) é um sujeito aparentemente comum, que trabalha numa seguradora, tem poucos amigos e esconde um garoto no porão. O longa o apresenta como ser humano e não monstro, apesar de deixar clara sua monstruosidade – talvez até demais, como se tivesse uma lista de traços da personalidade desse tipo de criminoso.

O tema é sensível, e Michael trata tudo de forma fria. Incômodo, mas revelador de um cineasta estreante a quem se deve observar.

Por sorte, os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, que costumam apresentar realidades bem duras, vieram mais leves com Garoto de Bicicleta. Tudo começa difícil para o pequeno Cyril (Thomas Doret), abandonado pelo pai num internato e rejeitado depois, na cara dura, quando vai procurá-lo no restaurante onde ele está trabalhando. O menino fica revoltado, mas tem uma chance de ser salvo graças à cabeleireira Samantha (Cécile de France, com o maior jeito de fada boa). A questão é se ele vai querer essa ajuda. Inspirado em contos de fadas, é um Dardenne menos contundente e mais fácil, mas com o talento habitual dos belgas que já ganharam duas Palmas de Ouro.

Bem mais para cima é The Artist, de Michel Hazanavicius, repleto de nostalgia. O diretor ousou ao realizar um longa-metragem mudo, em preto e branco, que trata do mesmo tema de Cantando na Chuva, o clássico de 1952 estrelado por Gene Kelly. Na trama, Georges Valentin (o astro francês Jean Dujardin) é um astro da Hollywood da era do cinema mudo aparentado de Rodolfo Valentino e Douglas Fairbanks.

Quando o som chega, ele vive a decadência absoluta enquanto Peppy Miller (Bérénice Bejo), que conheceu quando ela ainda era aspirante a atriz, tem uma carreira meteórica.

Apesar de extremamente divertido e emocionante, com seu misto de comédia e melodrama, The Artist toca em temas sérios como fama e descarte de pessoas com qualidade técnica e sacadas bem espertas. Mas a redenção mesmo, o filme que mostrou que, apesar das perdas, a vida vale ser vivida, é A Árvore da Vida (leia reportagem da capa), de Terrence Malick. Foi um sopro de vida numa seleção marcada pelo desespero.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.