
Nascido na Holanda, no ano de 1947, Hein Leornard Bowles conta que sua família migrou para o Brasil quando ele ainda era um "piá pançudo" de 4 anos. Fixaram residência primeiro na Bahia, em Santo Amaro da Purificação, depois em Salvador, Curitiba e, em 1959, vieram para Ponta Grossa, nos Campos Gerais.
Esse holandês-brasileiro é um apaixonado pela Língua Portuguesa e encontrou na linguagem do dia-a-dia seu campo de pesquisa. Doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP), escreveu o livro Arqueologia da Raiva e do Entusiasmo, em que disseca procedimentos que dão origem a metáforas e metonímias.
Foi usando o mesmo rigor e critério de suas pesquisas acadêmicas que o professor Bowles concebeu Jacu Rabudo, uma compilação de expressões populares usadas em Ponta Grossa. A obra é organizada por temas, formato semelhante ao do clássico Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo (também chamado de "dicionário de ideias afins").
Organizando a pesquisa por temas, o autor mostra um talento impressionante para transcrever diálogos e encontrar soluções textuais para a linguagem oral algo dificílimo de fazer na literatura. As expressões são apresentadas sempre no contexto de uma conversa, o que torna a experiência de leitura mais envolvente. As situações são impagáveis e é impossível passar pelas páginas sem rir.
"O processo foi demorado. Sou bastante disciplinado e meticuloso e, assim, fui tenteandinho, meio po rumo, até chegar ao fim. Foi de cansá o juízo", brinca, usando algumas das expressões do livro.
Em sua pesquisa, Bowles passou por momentos engraçados e desconcertantes. "Houve uma vez em que o meu interlocutor usou uma expressão interessante que eu precisava anotar. E, em seguida, ele empregou outra, também preciosa, emendando logo após uma terceira! Daí foi me dando um ruim, porque eu não podia esquecer tudo aquilo. Pensei: se esse desgracido me vier com mais alguma coisa, tô ca porcada no mato, porque vai dá aio para lembrar de tudo depois", mostrando que, apesar de ser um intelectual, e talvez até por causa disso, não tem qualquer preconceito ou problema em usar a linguagem coloquial, normalmente atribuída a pessoas com pouca instrução formal.
Ele esclarece que procurou resgatar a linguagem coloquial usada em Ponta Grossa, o que não quer dizer necessariamente que ela seja originária da cidade, com exceção de algumas palavras. "Só se pode afirmar com segurança a origem local de expressões vinculadas a pessoas de nossa cidade. Assim, temos, curu (pão-duro) firme co zuk? (uma saudação) e vá cobrá do bartolo! (algo como "vá cobrar do bispo!)", explica o autor.
Embora a pesquisa tenha sido feita em Ponta Grossa, os termos compilados, ou a maior parte deles, vão além das fronteiras da cidade e aparecem também em regiões vizinhas. "Isto fica claro a partir do próprio subtítulo do livro, que diz a linguagem coloquial em Ponta Grossa, e não, portanto, de Ponta Grossa", diz Bowles.
Talvez essa seja uma das explicações para o sucesso de vendas que o livro teve na região dos Campos Gerais. Segundo Bowles, desde seu lançamento, em dezembro de 2009, a obra figura na lista dos mais vendidos na cidade. "Ocupou o primeiro lugar durante 11 semanas seguidas e, hoje, depois de nove meses, ele está em quarto lugar", diz. A editora Todapalavra fez duas edições, de mil exemplares cada um e, segundo o autor, já prepara uma terceira.
Serviço: Jacu Rabudo: a Linguagem Coloquial em Ponta Grossa, de Hein Leonard Bowles. Todapalavra, 150 págs., R$ 30. Na internet: www.todapalavraeditora.com.br



