Entrevista com Reinaldo Marques - Professor e pesquisador
De 1938 a 1942, o escritor, e então cônsul adjunto, João Guimarães Rosa estava em Hamburgo, na Alemanha, na gênese da Segunda Guerra Mundial. No período, Rosa manteve um diário. O material, praticamente pronto para ser impresso, está retido. As filhas do primeiro casamento do autor não autorizam a veiculação durante a estada alemã Rosa estava com a segunda esposa, Aracy. O professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Reinaldo Marques é um dos responsáveis pela produção desse "diário alemão". Em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, Marques conta a "novela" em torno desse documento, por hora, embargado.
Gazeta do Povo O senhor participa da produção, preparação de diários de Guimarães Rosa, no período em que ele esteve na Alemanha...
Reinaldo Marques Nos fundos documentais da escritora e poeta Henriqueta Lisboa, alocados no Acervo de Escritores Mineiros da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), encontra-se uma cópia xerográfica do diário escrito por João Guimarães Rosa, contendo anotações relativas ao período de 1938 a 1942, durante o qual ele trabalhou como cônsul adjunto em Hamburgo, Alemanha, coincidindo com os primeiros anos da Segunda Guerra Mundial.
É um diário íntimo?
Não se trata de um diário íntimo, dado que as anotações projetam-se para o mundo exterior, revelando um sujeito profundamente observador das paisagens humana, física e cultural do mundo à sua volta. Trata-se de um dos documentos mais importantes dos fundos documentais do Acervo de Escritores Mineiros, pelo seu significado para os estudos literários e históricos. Talvez seja o único testemunho de um escritor latino-americano do porte de Guimarães Rosa sobre um dos momentos mais trágicos da história ocidental no século 20. Na sua composição, o "diário alemão" de Guimarães Rosa apresenta uma diversidade de registros e escritas: citações de textos, de livros; relação de palavras de diversas línguas, ressaltando-se seus significados, à maneira de verbetes de dicionários; relatório de despesas, com inscrição de contas; lista de livros na estante, de temperos da culinária alemã; roteiros de viagens diplomáticas; convites para compromissos consulares; relatos de visitas ao zoológico e de idas a teatros e restaurantes; descrições da paisagem, do clima; registro de fatos ligados ao desenrolar da guerra; comentários de leitura de jornais, com críticas às medidas dos nazistas relativas aos judeus etc. Tudo isso entremeado de esboços de poemas, fragmentos de histórias, registro de anedotas, indicando-se o teor pré-redacional ou redacional de algumas passagens. Também estão colados nesse diário recortes de jornais da época, com notícias de ataques dos aliados, informações sobre medidas de segurança, notas de falecimento de membros do Partido decorrente dos bombardeios, anúncios, de tapete, de empregos, convites etc.
É um diáiro poliglota?
O caráter heterogêneo das notas é ressaltado pelo seu teor multilíngüe: presença de textos e expressões em alemão, francês, espanhol, inglês, além do português. Muitas das observações relativas à paisagem são ilustradas com desenhos feitos pelo autor.
Em que situação se encontra a produção gráfica desse diário?
Todo o diário já se encontra digitado e o trabalho de preparação do texto já, praticamente, todo ele feito: notas explicativas, apresentação, tradução das passagens em alemão ou outras línguas, etc.
De que maneira esse diário chegou até a UFMG?
Importa esclarecer que o documento que se encontra nos fundos documentais de Henriqueta Lisboa é uma cópia xerográfica, como já foi dito. Não é o original do diário, ao qual não tivemos ainda acesso e não sabemos se existe. Em maio de 1973, a Xerox do Brasil fez cinco cópias dos famosos cadernos de anotações do escritor, entre os quais o referido diário. Um conjunto dessas cópias foi entregue a Henriqueta Lisboa, cuja sobrinha, a escritora Ana Elisa Lisboa Gregori, era casada com o então presidente da Xerox à época, Henrique Sérgio Gregori. É de se supor que as relações de parentesco tenham colaborado para que Henriqueta Lisboa, que era uma estudiosa da obra de Rosa, recebesse também cópias dos cadernos. Os originais desses cadernos encontram-se no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, que abriga o acervo do escritor mineiro, à exceção dos originais do diário da Alemanha.
Quantas pessoas estão envolvidas nessa força-tarefa do diário?
Desse trabalho participaram também a professora Eneida Maria de Souza, o professor Georg Otte, que providenciou a tradução de passagens em alemão e outras línguas, e alunos bolsistas, que digitaram o material. Cabe frisar que o trabalho de edição do diário de Rosa na Alemanha se desenvolve no âmbito do Projeto de Pesquisa Acervo de Escritores Mineiros, do Centro de Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG, coordenado pelo professor Wander Melo Miranda. Como diretor da Editora UFMG, o professor Wander propôs à Editora Nova Fronteira, editora de Rosa, a co-edição do diário.
Por que esses diários ainda não foram publicados?
Lamentavelmente, o "diário alemão" de Guimarães Rosa não foi publicado até agora porque as filhas do primeiro casamento do escritor não autorizaram a publicação ainda. Aguardamos que as negociações entre as editoras e os herdeiros do escritor possam chegar a bom termo. E que os leitores e admiradores da obra de Rosa tenham acesso a esse documento com a publicação do mesmo, quem sabe ainda neste ano do centenário de seu nascimento.



