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Discos, livros & camisetas

O multifacetado Luiz Antônio Solda se reinventou depois de enfrentar e superar uma depressão, publicou livros, mantém um blog e desenha muito

Solda faz fusão de desenho com letras, em estilo inconfundível e traço solto |
Solda faz fusão de desenho com letras, em estilo inconfundível e traço solto (Foto: )
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Luiz Antônio Solda faz sucesso no Piauí, apesar de muita gente não acreditar que o estado nordestino seja real. O dramaturgo Nelson Ro­­drigues costumava dizer que o Piauí não existe. Mas o artista paulista radicado em Curitiba participa todos os anos, desde 2002, do Salão Inter­na­cional de Humor do Piauí, um dos mais importantes do país, que chegou a sua 26.ª edição em julho passado.

Em Teresina, entre goles de suco de caju, em meio aos habituais 40ºC, Solda distribuiu autógrafos, posou para fotos, concedeu entrevistas, ministrou cursos e viveu no estado em que costuma viver: o estado de poesia.

"Um poeta sentado/ é um poeta/ em pé de guerra", escreve Solda em um de seus haicais (outros aparecerão ao longo deste texto).

A esposa, Vera Prado, conta que o marido dorme das 13h32 às 14h37. "É a hora em que ele está em ‘estado de charge’", diz Vera. De­­pois do almoço, Solda deita durante aproximados 60 minutos para pen­­sar nas charges que tem de fa­­zer diariamente. Mas da cama até o estúdio, que fica nos fundos de sua casa, tudo o que ele havia imaginado, as ideias para transformar em desenhos, se desmancham no ar, passo após passo. "Na verdade, eu faço mesmo uma siesta", diz.

"Eu sou genial!/ Sempre profundo/ em minha cultura/ superficial."

Em 1965, Solda chegou, diretamente de Itararé (SP), para morar na Vila Hauer, com o seu pai, Eu­­rídes, já falecido. O que o menino mais gostava era comprar discos, livros e camisetas. Mas ele teve de fa­­zer uma opção. O salário, que ganhava gastando sola de sapato como contínuo, teria de ser investido na mensalidade da escola ou na aquisição de discos, livros e camisetas. Ele optou pela segunda alternativa.

"Sensacional/ Minha amargura não sai/ no diário oficial."

A formação oficial foi substituída, anos depois, por uma espécie de universidade livre, informal e, acima de tudo, divertida. O endereço: Rua São Francisco, 50, no Setor Histórico. Era a casa onde moravam os irmãos Luiz Antônio e Manoel Carlos Karam. Solda começou a frequentar o amplo casarão e não demorou para ganhar o direito a uma cama.

"A vida passa assim:/ na metade/ já estamos no fim."

Em 1973, Karam fundou o grupo Margem, que viabilizou experiências inusitadas no palco do extinto Teatro de Bolso, na Praça Rui Bar­­bosa. Solda atuava como ator, tocava baixo, fazia cenários, limpava o palco e colava cartazes em mu­­ros de Curitiba, quando era possível caminhar sem medo pelas ruas da cidade durante as madrugadas. Solda e Karam compravam um mesmo disco de vinil: cada um era dono de um dos lados.

"Este é um poeminha/ popular/ favor agitar/ antes de usar."

O escritor Wilson Bueno conta que somente o Solda era chamado publicamente de gênio por Paulo Leminski. Solda e Leminski dividiram muitos momentos. Traba­­lha­­ram lado a lado em diversas agências de publicidade nas décadas de 1970 e 1980. Leminski deixou o traço de Solda mais poético. Solda impregnou de humor a poesia de Leminski.

"Torta minha caneta/ o soneto me saiu/ meio Emiliano Perneta."

Se, como diz o clichê, não existe almoço grátis e todo o excesso cobra o seu preço, um dia Solda recebeu de seu médico uma sentença: se continuasse bebendo, teria, no máximo, três meses de vida. Solda saiu do consultório, foi até um bar e tomou o seu último drinque. Isso há mais de duas décadas. Desde então, só bebe refrigerante em eventos sociais, e café descafeinado e água em casa. Pa­­rou de fumar faz três meses.

"Não se iluda, meu amigo/ nesta vida/ não tem poema para tudo."

Solda saiu de cena durante a década de 1990. Submeteu-se a um tratamento para depressão em clínicas e hospitais. "Foi uma temporada no inferno", lembra. Em 2002, Robert Amorim e Gilson Camargo Jr. bateram palmas na porta de sua casa, no final de uma avenida no Conjunto Solar, no Bacacheri, e o convidaram para fazer uma exposição no Beto Batata do Alto da XV.

"Lá em cima o céu,/ e eu aqui,/ debaixo do meu chapéu."

O retorno foi, sem exagero, triunfal. Em 2002, Solda publicou os livros Almanaque do Pro­­fes­­sor Thimpor e Kamikase do Espanto. Dois anos depois, saiu o seu "Livro Branco", com apresentação do Jaguar, que a partir do significado da palavra solda (ligar, unir) escreveu o se­­guinte: "Seu cartum fatalmente teria que desaguar nas letras. Ele (Solda) é um cartunista de letras."

"Eu, assim de lado/ pareço/ um retrato falado."

Ele tem um blog que recebe mais de 3 mil visitas por dia e alia textos poéticos, imagens, agenda cultural e difusão de ideias.

"Em verdade vos digo:/ nada tenho/ contra meu umbigo."

No flamenco, quando a bailaora transcende, dizem que ela está com o duende. Há quem diga que, se está "inspirado", é porque "baixou o santo". Outros falam que, para "algo" acontecer, é preciso deixar o passarinho pousar no ombro.

Solda, aos 57 anos, é assim: nunca procurou o pote de ouro no fim do arco-íris, nem deseja a mala cheia de reais. Espera, sim, o passarinho (a poesia) pousar em seu ombro.

E quer mais discos, livros e camisetas.

Serviço

Na internet: http://cartunistasolda.blogspot.com

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