
Pequenos milagres são aquelas reviravoltas que a vida dá, que de tão arduamente esperadas, mais surpreendem quando se realizam. O Grupo Galpão recolheu quatro desses imprevistos cotidianos em um espetáculo que comemora os "25 anos de encontros" entre os atores do grupo mineiro e os diversos diretores com quem firmaram parceria desde a criação da trupe. A celebração tomou a forma do espetáculo Pequenos Milagres, que elevou a qualidade da programação do Festival Internacional de Londrina neste fim de semana em companhia da peça Abre as Asas sobre Nós, dirigida por Luiz Valcazar.
A condução do "grupo de atores", como o Galpão se define, por não ter diretor fixo, desta vez ficou a cargo do experiente diretor londrinense Paulo de Moraes, que comanda a Armazém Cia. de Teatro, no Rio de Janeiro, desde 1999. Moraes foi convidado para trazer ao grupo uma "postura menos teatral, mais despojada e realista", afirma o ator Eduardo Moreira.
A contribuição fica explícita em cena desde a escolha do texto. Inspirado no livro Achei Que Meu Pai Fosse Deus, de Paul Auster, o diretor sugeriu coletar narrativas reais. Para tanto, foi criada a campanha Conte Sua História, que recebeu mais de 600 textos de todo o país. "Eram relatos verdadeiras que chegavam com uma pitada do imaginário popular", diz o ator Chico Pelúcio. Depois de uma seleção prévia e de testar várias histórias, o diretor e o grupo escolheram quatro narrativas distintas, nem sempre com final feliz, que expõem desejos e fraquezas humanos.
Pequenos Milagres conquista pela força dramática de suas tramas, em que se destacam a frustração de um casal ele, destituído de iniciativa, e ela, de libido no conto "Casal Náufrago"; e as relações de uma menina com a pobreza e a vontade, em "O Vestido". A delicadeza e a densidade das histórias são reforçadas pela iluminação de Maneco Quinderé sobre um cenário grandioso e funcional, uma das especialidades do Paulo de Moraes.
Gaiola
O cenário exerce impacto ainda maior na montagem Abre as Asas sobre Nós, que o diretor Luiz Valcazaras (de Dança Lenta no Local do Crime) levou a Londrina. É um viveiro sem pássaros, uma grande gaiola no interior da qual desenvolve-se a trama trágica protagonizada por personagens do submundo um cafetão, duas travestis e uma "vítima". Uma metáfora à vida marginal que, enquanto não os leva para trás da grades da cadeia, condena-os à falta de perspectivas.
A peça, baseada em um conto de Drauzio Varella ("Bárbara"), foi adaptado pelo dramaturgo Sérgio Roveri e lhe rendeu o Prêmio Shell de melhor autor em 2006. O texto tem falas definitivas, que ecoam na voz dos personagens e na mente do público. "Faca não mata, tira o excesso", sentencia Galega, uma transsexual interpretada por Walmir Pinto, ao contar que desde pequena sentia que não cabia em si e por isso furava as veias do pé só o suficiente para sangrar sem precisar de socorros médicos para se "esvaziar" um pouco.
Galega é agitada, o contraponto de Bárbara (atuação precisa de Emerson Rossini), a travesti que, apesar de não ter passado por operação de mudança sexo, tem uma feminilidade delicada. O que as iguala é a agressividade, menos inata do que adquirida como resposta à vida. Os atores Walter Baltazar, no papel do cafetão violento, e André Fusko, como Paulo Preto, um homem inseguro e carente, que se envolve com Bárbara após atropelá-la, têm atuações menos brilhantes.
Abre as Asas sobre Nós ainda não tem passagem prevista por Curitiba, mas Pequenos Milagres já tem data de chegada, o longínquo dia 7 de dezembro. Vale esperar pelas duas.



