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Música

Documentário resgata a história da Blitz

Filme deve estrear no circuito de festivais no mês que vem | Divulgação
Filme deve estrear no circuito de festivais no mês que vem (Foto: Divulgação)

A criação da juventude se deu em Saquarema, Rio de Janeiro, em um dia de verão de 1982. Seu autor é um surfista das antigas que odiava quando se referiam a ele como Zeca Mendigo – prefere Zeca Proença até hoje. Sem vontade de ser nada além do que já era, com uma vida que se resumia a pegar ondas na praia de Itaúna e a tocar rock-and-roll à beira da fogueira, Zeca rascunhou um refrão de cinco palavras que um dia poderia virar música, ou não. "Você não soube me a­­mar, você não soube me amar". A letra criou asas e saiu voando da região dos Lagos para Ipanema. Caiu nas mãos de uma outra banda de rock, ganhou arranjos, solo de guitarra, estrofes gigantes, entrou em um estúdio e saiu aos milhares em formato de LP. Ao ser lançada primeiro em EP (os disquinhos que traziam uma música de cada lado) e depois em LP, ajudaria a banda Blitz a sair vendendo mais de 1 milhão de cópias com um discurso ingênuo apenas na superfície.

A história da canção que fez eclodir a banda Blitz em 1982, e que por tabela ajudou a criar o rock brasileiro dos anos 1980, será contada no documentário de curta duração Mais de Três Foi o Diabo Que Fez, uma referência às quatro cabeças que assinam a música: Zeca Proença (o surfista autor do refrão), Evandro Mesquita (que recebeu o refrão de um amigo que tinha em comum com Zeca), Guto Barros (guitarrista da Blitz que pensou nos arranjos, harmonia e melodia), e o guitarrista Ricardo Barreto (que completou a letra com Evandro). Ao saber da poliautoria, Caetano Veloso disse a frase que batizaria o projeto. O filme deve estrear somente no circuito de festivais, em março.

Lapidação

Os versos de Zeca foram sendo lapidados por um longo caminho até serem gravados no EP que tinha de um lado "Você Não Soube Me Amar" e, do outro, uma voz que repetia "nada, na­­da, nada, nada". A brincadeira vendeu 100 mil cópias em três meses. Sessenta dias depois de lançada, aparecia de novo no LP As Aventuras da Blitz. "Foi uma música criada em meio àquela cultura de surfe dos anos 80", diz Zeca Proença.

O restante da letra de "Você Não Soube Me Amar", o equivalente a 90% do todo, foi inspirado em um espetáculo que Evandro dirigia à época no grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, semente da Blitz que tinha como casa o Circo Voador, na divisa das Praias de Ipanema e Copacabana. "Existia uma cena onde o ator contracenava com seis ou sete garotas. Elas representavam na verdade uma mu­­lher que, de tão boa, era vá­­rias em uma só. A letra estava sendo desenvolvida, mas, por ser grande e meio falada, estava difícil de ser musicada", diz o produtor do documentário, Daniel Accioly, 26 anos (nenhum dos parceiros de Accioly no projeto tem idade para ter curtido 1982 com a idolatria que se instalou nas rádios FM a partir da gravação da Blitz. O diretor Leonardo Sou­­za tem 22 anos e a editora Tita Berredo, 24). A tarefa de fazer aqueles versos virarem música ficou com o guitarrista Guto Barros. Apenas com um refrão pronto, ele criou o riff de guitarra e musicou as partes.

Quando o Circo Voador ficou pequeno para a Blitz, a censura cresceu os olhos. Foi preciso dar um chute na porta, nas palavras de quem viveu ali os primeiros anos da década de 1980. A música brasileira não estava para piadas, com artistas ainda tateando no escuro de uma ditadura traumática. Quando o segundo disco da Blitz chegou, em 1983, com o nome de Radioatividade e dois cavalos de batalha, a balada "A Dois Passos do Paraíso" e a quase censurada "Betty Frígida", não deu para segurar. A no­­va juventude estava criada. E o rock virou pop.

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