
O documentarista Charles Ferguson sabia que a crise financeira de 2008 seria um grande tema global a tratar, mas teve medo de seu filme "Trabalho Interno" (confira trailer e fotos) cair na categoria de um filme tedioso, se não fosse bem trabalhado.
Por isso, ele aplicou ferramentas normalmente associadas a longas de ficção, como fotografia expansiva e "música bacana" para ilustrar como os Estados Unidos e o mundo mergulharam no desastre financeiro mais profundo desde a Grande Depressão.
Hollywood tomou nota. No mês passado, Ferguson recebeu o prêmio de melhor documentário do Sindicato de Diretores da América, fazendo de "Trabalho Interno" uma aposta segura para levar o Oscar de filme de não ficção quando os prêmios mais importantes do cinema mundial forem entregues, em 27 de fevereiro.
"Eu quis que o filme tivesse boa música, boa fotografia, que fosse ágil, engraçado em alguns lugares, interessante, não uma aula de história", disse Ferguson, que dirigiu o documentário sobre a guerra do Iraque "Sem Fim à Vista", indicado para um Oscar.
"Trabalho Interno" começa pacificamente, com as paisagens belas da Islândia, um país minúsculo que ficou economicamente congelado pelo colapso global dos bancos e do crédito.
Ferguson concluiu que a Islândia foi "um exemplo destilado, incrivelmente claro, de algo que aconteceu nos Estados Unidos ao longo de um período mais longo e de maneira mais complicada."
Ferguson faz ex-funcionários do governo americano e do Federal Reserve perder a calma quando os interroga implacavelmente sobre seu papel na crise, o fato de terem ignorado os sinais de aviso e seus conflitos de interesse, como economistas e acadêmicos.
"Foram entrevistas tensas", disse o diretor. "Mas meu primeiro filme foi sobre a ocupação do Iraque, e passei um mês filmando no Iraque em 2006. Portanto, fazer uma entrevista tensa com um professor de escola de administração não é a pior coisa do mundo."
Nem todos, porém, se dispuseram a se sujeitar às perguntas incisivas de Ferguson."Eu teria feito qualquer coisa para conseguir entrevistar Henry Paulson ou Larry Summers", conta o diretor. Paulson foi o ex-executivo-chefe do Goldman Sachs e secretário do Tesouro durante a parte pior da crise de 2008, e Summers, ex-secretário do Tesouro e alto assessor econômico de Obama.
"Os dois foram envolvidos nas causas da crise e depois ocuparam altos cargos no governo durante e após a crise", disse Ferguson. "Eu queria muito lhes fazer perguntas difíceis."
Ferguson critica o presidente norte-americano, Barack Obama, por escolher uma equipe econômica e regulatória que o diretor acredita ter sido profundamente envolvida nos fatos que desencadearam a crise.
Olhando para o futuro, Ferguson se diz "um pouco otimista" por achar que os americanos estão começando a entender que o sistema financeiro é mal administrado e regulado e a acreditar que eles colocarão pressão sobre os líderes políticos para que solucionem o problema.
Quanto a seu próprio futuro profissional, "acho que chega de documentários sobre Wall Street, por enquanto", ele falou.



