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Don Juan é espetáculo lúdico e adulto

O espanhol Miquel Gallardo, o único ator em cena, representa o jovem frei e manipula bonecos de escala humana | Divulgação/Filo
O espanhol Miquel Gallardo, o único ator em cena, representa o jovem frei e manipula bonecos de escala humana (Foto: Divulgação/Filo)

Londrina - Algumas obras de arte tratam o público como criança, o que tende a ser uma forma de subestimá-lo. Outras pressupõem que estão lidando com adultos, e não fazem concessões. Entre as duas vertentes, oscila o espetáculo espanhol Don Juan – Memória Amarga de Mí, que terminou ontem sua participação no Festival Internacional de Teatro de Londrina, o Filo. Sem pender para qualquer dos dois extremos, é lúdico, ao mesmo tempo em que é adulto.

A trama põe em dúvida a moral cristã. Já idoso, Don Juan – o homem que amava todas as mulheres ou nenhuma delas – se refugia em um convento franciscano. Sua conduta de vida é incompreensível para o jovem frei encarregado de atendê-lo, ocasionando um choque de valores.

Convicto da vida desregrada que levava, Don Juan espeta as certezas do moço sobre a legitimidade de se confinar na entrega a Deus, quando há todo um mundo lá fora – e sentimentos sufocados debaixo da batina.

Miquel Gallardo, o único ator em cena, representa o jovem frei, tomado por um afeto crescente pelo forasteiro a quem deveria repudiar moralmente. Ao mesmo tempo em que atua, porém, Gallardo manipula bonecos de escala humana, com os quais contracena. Empresta sua voz e movimentos a um padre que lhe serve de figura paterna; ao velho Don Juan; e a uma aparição feminina misteriosa. A única a não cobrar do sedutor as contas de ter sido enganada no passado, quando todas as mulheres a quem iludiu no passado voltam a atormentar sua mente, como projeções de rostos sobre um véu estendido do alto ao chão do palco.

A interação entre personagem de carne e osso e bonecos manipulados pelo mesmo ator, fazendo diferentes vozes, impressiona. O domínio da técnica fica evidente quando o frei testa os ditames da mente sobre o corpo pegando Don Juan no colo e cumprindo com ele uma coreografia desajeitada. Gallardo esconde o mais que pode a própria boca quando fala pelo boneco e não por si. A certa altura, solta Don Juan estirado sobre o piso e com o pé, escondido, faz com que o boneco pareça respirar sozinho. Nesses momentos, trata o espectador como uma criança a ser iludida pela brincadeira.

Mais uma vez, a ilusão se quebra propositadamente e um dos bonecos demonstra a consciência do quanto depende do manipulador. Pela técnica, é claro, os personagens só podem interagir dois a dois. Sozinhos, os bonecos não têm qualquer liberdade. Na hora de deixar o palco, o velho padre dá um passo sem conseguir se afastar do frei, então pede a ele com um movimento de cabeça que o acompanhe até a coxia.

A dramaturgia opta por um esquema de segredo e revelação que não chega a surpreender e é muito pouco clara quanto à aparição feminina. Além disso, a discussão que propõe poderia ser, mas não é, das mais complexas. Até porque fica polarizada entre dois exemplos de conduta, quando há tantos outros. Fica-se então com a ironia final de que o frei, aquele personagem que não é representado por um boneco, de todos em cena era o único vítima de manipulação.

*A repórter viajou a convite do Filo.

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