
GRAMADO - A terceira noite do 36.° Festival de Cinema começou com a exibição do único documentário que concorre ao melhor longa-metragem estrangeiro, Mindelo Atrás do Horizonte, do diretor grego radicado no Cabo Verde Alexis Tsafas.
O filme retrata o cotidiano da pequena Mindelo, uma cidade-porto caboverdiana, sem utilizar recursos tradicionais do documentário como narração, entrevistas ou qualquer tipo de contextualização. "O Cabo Verde é um país pequeno e pobre. Não temos uma tradição cinematográfica. Por isso estarmos aqui é uma vitória", disse Tsafas minutos antes da apresentação do filme.
A câmera de Yannis Fotou fixa-se em cenas da vida contemporânea para revelar aspectos da cultura crioula, traçando paralelos inusitados: percorre, por exemplo, o corpo em movimento de um dançarino moderno para registrar, em seguida, uma dança típica, explicitando, assim, um tempo presente ainda impregnado de passado.
A platéia de Gramado, muito reduzida desde o primeiro dia do festival, pôde descobrir semelhanças entre as culturas do Cabo Verde e do Brasil, como a dança dos jovens, que lembra muito o funk carioca, o gosto pelo samba e o carnaval. O longa-metragem, de 74 minutos, é uma experiência um pouco cansativa, já que não há uma linha narrativa, e sim uma sucessão de imagens. Mas o grande mosaico proposto revela, com delicadeza e naturalidade, a vida e a riqueza cultural daquele povo.
Gaúcho
Além de Vingança, de Paulo Pons, exibido na segunda-feira (11), outro longa-metragem gaúcho participa da mostra competitiva. Em Netto e o Domador de Cavalos, apresentado ontem, o diretor Tabajara Ruas manteve-se fiel à temática riograndense já explorada em seu primeiro longa, Netto Perde sua Alma. O épico, no entanto, coloca o general Netto (Werner Schünemann) à sombra para contar a história do sargento Torres (Tarcísio Filho), um mestiço domador de cavalos preso pelas tropas monarquistas.
Pouco antes da Guerra dos Farrapos, Netto decide salvar o domador ao lado de um grupo de quilombolas rebelados, entre eles, o Negrinho do Pastoreio, que tem sua lenda recontada de forma a expor o sofrimento dos negros escravos. Tradicional e um tanto didático, o filme, no entanto, possui méritos como um roteiro que não perde o ritmo, a bela fotografia e um elenco competente (com destaque para Tarcísio Filho, principalmente na cena em que luta à faca com um dos assassinos do "negrinho").
Homenagem
Fã do comediante Oscarito, Renato Aragão o Didi recebeu, no domingo (10), uma homenagem especial. Mas, quem levou o prêmio Oscarito foi o ator Walmor Chagas, de 78 anos, na noite de ontem.
O protagonista de São Paulo S.A., de Luís Sérgio Person, subiu ao palco emocionado, com uma das mãos no peito, após a exibição de um vídeo com depoimentos de cineastas e atores que participaram intimamente de sua trajetória artística as atrizes Zezé Motta, Eva Wilma e Lucélia Santos; os diretores Cacá Diegues, André Sturm e Paulo Nascimento; e a filha, a cantora Clara Becker (de seu casamento com a diva do teatro Cacilda Becker).
"Quando morava em Porto Alegre, assistia aos grandes homens do cinema americano e achava que podia ser igual a eles. Fui para São Paulo com 22 anos, mas só me convidaram para fazer o primeiro filme quando eu já tinha 34. Hoje, com 60 anos de carreira, sempre sonhando com o cinema e ele acontecendo tão esporadicamente, eu recebo este troféu. Vocês me dão a certeza de que a vida é maravilhosa, de que tudo pode acontecer", disse com a voz embargada em seu discurso de agradecimento.
A jornalista viajou a convite do Festival de Cinema de Gramado.



