
É um concerto. É um filme. É um estado de espírito. Ou tudo isso junto. Como concerto de rock, seria apenas mais um. Foi feito e planejado assim, para dar dinheiro. Como filme, se transformou num dos maiores documentos da era hippie (e também um belo painel social dos anos 1960). E, como ideologia, ou estado de espírito, contagiou o mundo todo. E, ainda hoje, reverbera.
E, no mês em que se comemoram os 40 anos do mítico festival, estão sendo lançados aqui uma versão dita definitiva do filme, "Woodstock, três dias de paz, amor e música" (Warner), com 4 DVDs (versão do diretor, músicas que ficaram de fora, entrevistas e o documentário "Woodstock, onde tudo começou"), dois volumes com a sua trilha sonora (CDs nacionais da Warner) e uma coleção chamada "The Woodstock experience" (Sony) com as performances de Santana, Janis Joplin, Sly & The Family Stone, Jefferson Airplane e Johnny Winter no festival. Na TV, o canal Multishow exibirá a histórica apresentação de Jimi Hendrix, domingo (16), às 16h. Além de alguns livros.
Um dos livros virou filme dirigido por Ang Lee
Um deles, "Aconteceu em Woodstock" (Record), de Elliot Tiber e Tom Monte, virou filme dirigido por Ang Lee. Ele conta a trajetória de vida de Elliot Tiber, a pessoa que apresentou o produtor do festival, Michael Lang, a Max Yasgur, o dono da fazenda onde tudo aconteceu, em White Lake, Bethel (NY). O outro livro, "Woodstock" (Agir), de Pete Fornatale, lista todos os artistas que tocaram no festival, dia a dia, show a show, e atrela depoimentos de remanescentes (alguns feitos na época, outros mais recentemente) sobre as performances, tentando explicar o festival em si.
Contudo, após assistir à maratona de quase dez horas com que a caixa com quatro DVDs de "Woodstock" (que será vendida com exclusividade pela rede Saraiva) nos brinda, percebemos que, o que era para ser apenas mais uma jogada comercial (para capitalizar em cima de bandas quentes do momento) se transformou no marco de uma geração. Por conta do público. Se não fosse a horda de pessoas (cerca de 500 mil, nunca houve um número oficial) que acorreu à fazenda Yasgur, em Bethel, e que, durante três dias de muita lama, fome e sufoco, conviveu na paz, sem conflitos, a tal Nação Woodstock poderia ter se transformado num pesadelo.
Pois é. O Festival de Woodstock sequer aconteceu lá (a comunidade vetou). E, originalmente, nem tinha este nome. Chamava-se "An aquarian exposition, 3 days of peace & music" (uma exposição aquariana, três dias de paz e música). Tudo o mais se deu após o filme ter sido lançado e mostrado para o mundo o que tinha acontecido. Então, às voltas com um abacaxi imenso nas mãos, o tranquilo produtor Michael Lang acabou conhecendo um artista local, Elliot Tiber, que organizava anualmente na região um festival de artes e música em White Lake, vizinha a Woodstock. Daí, para acabarem na fazenda de Max Yasgur, que tinha um imenso campo de alfafa que formava um anfiteatro natural, foi questão de sorte.
Essa história está contada verbalmente pelos sobreviventes da época (Lang e vários dos artistas que tocaram lá e gente envolvida na produção) num dos discos que compõem a caixa. Em cerca de duas horas e meia, temos acesso a essas informações e sobre o pesadelo que foi fazer o festival acontecer (ele foi cancelado meia dúzia de vezes). E de como o que seria um evento rentável acabou, na época, transformando-se num prejuízo incalculável (a certa altura, não se cobrava mais entrada). Até que o tempo e o filme fizessem justiça (e fortuna) e mostrassem qual foi a real.
Colaborou muito para isso a visão do diretor do filme, Michael Wadleigh, que, além de ser um homem de seu tempo, totalmente ligado com o que estava acontecendo à sua volta, também era um documentarista com sensibilidade o bastante para conseguir captar isso através de película e música. Se Wadleigh tivesse só filmado um concerto de rock com os sucessos dos artistas, teria feito apenas mais um filme do gênero (como "Monterey Pop"). Em vez disso, preferiu construir um roteiro, guiando-se pelas letras de músicas que tinham a ver.
Funcionou. Mas, para isso, Wadleigh teve de dirigir um miniexército de cinegrafistas, que, munidos de pesadas câmeras de 16 milímetros (cerca de 20 delas), cobriram o que acontecia do palco de vários ângulos (como não se fazia então) e também saíam em campo para ver o que estava acontecendo em volta do festival, na comunidade, na estrada, antes, durante e depois.
Além da maneira diferente de filmar os shows e da abordagem aos artistas, Wadleigh e equipe também inovaram na questão estética. Graças a uma nova mesa de edição alemã (encomendada pelo cineasta Francis Ford Coppola), "Woodstock" foi o primeiro filme a usar a técnica da tela dividida em duas e em três, mostrando diversos pontos da ação, no palco e fora dele.Martin Scorsese foi um dos montadores do filme
Além da ajuda involuntária de Coppola, vários segmentos do filme foram editados pelo então novato Martin Scorsese (que também fala nos extras). Para arrematar e fazer o filme soar grandioso nos cinemas (e fazer caber as divisões de tela), a fita master de 16 milímetros teve de ser ampliada para 70 milímetros, o que deu uma trabalheira dos diabos, como contam os envolvidos. Isso foi necessário principalmente para casar as imagens com a trilha sonora, já que naquele tempo não havia computador, tudo era feito na marra. Por isso, certas bandas e músicas não entraram na primeira versão do filme, porque os áudios não casavam com as imagens.
Parte do que sobrou está na nova versão, que faz o filme pular de quase três horas para cerca de quatro, divididas em dois discos remasterizados e com o som mixado para o sistema 5.1 Dolby Surround. Contudo, há ainda um disco, de três horas, com muito material que ficou no chão da sala de edição, números como o Who tocando "My generation", o seu maior sucesso, ou duas músicas com a banda Mountain, que não foi incluída em nenhuma versão do filme, e nunca foram mostradas antes.
Pelo jeito, ainda veremos mais coisas quando o filme comemorar os seus 50 anos.




