A imprensa de língua inglesa tem uma relação conturbada com Richard Ashcroft. Algumas das críticas publicadas sobre o novo disco-solo do ex-líder do The Verve, Keys to the World, que acaba de ser lançado no Brasil, beiram os ataques pessoais. A reclamação número um e alvo principal de detratores é o ego do músico. Ele não se contenta em compor música e desde o sucesso de "Bittersweet Simphony", parece que sempre está tentando escrever hinos sobre a vida, a morte e o amor.
Outro problema é, para usar um eufemismo, a falta de humildade de Ashcroft. O jornal The Guardian, por exemplo, ironiza sua arrogância ao se equiparar a Shakespeare, Nostradamus e Jesus Cristo com o agravante de que a comparação com o filho de Deus não é nada original e já foi feita por John Lennon há quase 40 anos.
O rapper americano Kanye West (Late Registration), em entrevista à revista Rolling Stone, disse que as pessoas querem que você seja importante, mas não querem que você admita que é importante. No instante em que isso acontece, os mesmos que o elogiavam, passam a criticá-lo. De fato, crítica e público são pouco tolerantes com ídolos imodestos. O que talvez explique o fracasso total do trabalho anterior de Ashcroft, Human Conditions (2002), considerado por seu autor no que parece ser uma provocação à imprensa inglesa um clássico equivalente ao Whats Going On (1971), de Marvin Gaye.
O intervalo de quatro anos que resultou em Keys to the World foi preenchido por shows exclusivos para fãs-clubes e com canções novas circulando somente na internet. Era natural que se criasse alguma expectativa. Afinal, ou ele se reergueria como o poeta e profeta que clama ser, ou afundaria sua carreira de vez. Tudo indica que a segunda opção é a mais provável.
Porém, o disco novo não é ruim como a crítica faz parecer. A reclamação mais freqüente diz respeito às letras, classificadas de "filosofia de botequim". A verdade é que o rock nunca precisou de letras significativas para fazer sucesso. Se precisasse, nunca teria existido o Nirvana e os Beatles jamais comporiam "Im the Walrus" nem "Ob-La-Di, Ob-La-Da", ambas do Álbum Branco. O problema é quando o sujeito diz ser o Shakespeare do rock... Daí a cobrança faz sentido.
A vantagem do público brasileiro sobre os falantes de inglês é que as letras importam ainda menos. E nas melodias, Ashcroft é muito bom. Pelo menos cinco faixas do novo disco têm pegada para se tornarem hits o que equivale a metade do total, um percentual ótimo em qualquer gênero. "Break the Night with Colour" e "Cry Til the Morning" são fáceis de ouvir e difíceis de desgrudar. No quesito hino, "Music Is Power" é o mais perto que ele chega de "Bittersweet Simphony".
A faixa-título é embalada por uma batida eletrônica e por vocais de fundo femininos que lembram demais algumas músicas de Play, do Moby. Se isso é bom ou ruim, depende de quem ouve. "Why Do Lovers" é o "momento Marc Anthony" do álbum (referência ao marido da Jennifer Lopez, cantor de baladas de gosto duvidoso). O refrão é quase insuportável e justifica a posição de pior faixa do álbum. Em segundo lugar, fica "Simple Song", seguida de perto por "Sweet Brother Malcolm", ambas pelo mesmo motivo.
Dos três discos de Richard Ashcroft, Keys to the World é melhor que Human Conditions, e pior que o primeiro, Alone with Everybody (2000). Mas os três são iguais nas saudades que deixam do The Verve. Quanto à história de Shakespeare, Nostradamus e Jesus Cristo do rock, deixe para trás. Por mais difícil que seja separar o homem de sua obra, a música merece ser ouvida. GGG



