"A canção já era, passou". A frase soaria profana, se não tivesse sido pronunciada por Chico Buarque em pessoa, em uma entrevista à Folha de S. Paulo, em 2004. Em tempos de rap, funk e música eletrônica, a sentença serviu de orientação para que o polêmico cantor e compositor da tropicália, Tom Zé, produzisse um CD quase oposto a suas propostas anteriores.
Não é Tom Zé que lança Danç-Êh-Sá Dança dos Herdeiros do Sacrifício, em uma mini-temporada de shows no Teatro da Caixa, de hoje a domingo. É seu heterônimo, DJ Tão Zé. Vestido à caráter, ele apresenta "sete Caymianas para o fim da canção". Nestas "pós-canções", remixa elementos da música eletrônica com músicas enraizadas da cultura brasileira para discutir questões estéticas como o "fim da canção".
O projeto foi inspirado em uma pesquisa de marketing feita pela MTV sobre o comportamento de jovens brasileiros, dos 15 aos 30 anos, que revelou o desinteresse da faixa etária por qualquer ato de solidariedade e a busca insaciável pelo prazer imediato a qualquer custo. "O repertório do show no Teatro da Caixa é composto por todas as peças do disco, sempre acompanhadas de uma canção minha antiga, como referência paradoxal", explica o "setentão" Tom Zé.
Se o tropicalismo que o consagrou virou peça de museu o badalado Museu Tate Modern, de Londres, abrigou recentemente uma série de eventos sobre o gênero, incluindo um show de Tom Zé no Barbican Center o artista volta a virar tudo pelo avesso, projetando sua música para o futuro, sem, no entanto, abandonar as questões da cultural nacional inerentes à sua produção.
Além da voz e intervenções do DJ Tão Zé, integram a banda Lauro Léllis (bateria), Cristina Carneiro (teclados e voz), Jarbas Mariz (percussão, cavaco, violão de 12 cordas e voz), Sergio Caetano (guitarra e voz), Daniel Maia (baixo e voz) e Luanda (voz e teclado programado).
Junto com o show, Tom Zé também programou uma conversa com o público no Teatro da Reitoria, no sábado, às 15 horas. O tema é a metafísica sertaneja, "sorrateira, se esculpindo pelos cantos do mundo, nas mãos de uma tal cultura moçárabe, ou da canção celta do século 10, ou do Infante d. Henrique com sua idéia astuta de reunir em Sagres todos os estudantes e fanáticos da ciência náutica".
Enfim, assuntos que estão inscritos na pauta de suas músicas.
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Serviço: Show de Tom Zé. Teatro da Caixa (R. Conselheiro Laurindo, 280), (41) 2118-5111/2118-5233. De quinta a sábado, às 21 horas, e domingo, às 19 horas. Ingressos a R$ 20 e R$ 10 (clientes da Caixa, idosos e estudantes). Até 17 de junho.



