Confesso de cara que não vi. Mas, como qualquer brasileira sujeita ao burburinho em alto volume gerado por uma novela das oito, fiquei sabendo de mais um pico de audiência motivado por um "pega" entre mulheres. E nem falo da fantasia masculina soberana. O atrito de corpos a que me refiro são os tapas e pontapés pesados levados por Yvone, a personagem psicopata de Letícia Sabatella na novela Caminho das Índias, encerrada no sábado.
Hoje à noite, Glória Perez passa o bastão a Manoel Carlos, com a estreia de Viver a Vida. Muda o cenário e o elenco. Mesmo assim, quase dá para prever que em algum momento da nova história uma mocinha, talvez a própria Helena de Taís Araújo, entre no ringue com sua adversária malvada, talvez a Luciana de Alinne Moraes. Arrancar sangue a pauladas de uma mulher virou artimanha fácil. Se alguém duvida, vou refrescar a memória.
Na novela anterior, A Favorita, a personagem Dedina, de Helena Ranaldi, apanhou do amante e do marido. Chegou a ser arrastada pelos cabelos para a rua. O adultério foi punido sem deixar nada a dever a filmes (e livros) como A Letra Escarlate, com a pequena diferença de que este se passava no século 17. Antes dos direitos femininos mais básicos penetrarem na consciência coletiva e muito antes de uma lei como a Maria da Penha.
Recuando no tempo, a vilã Taís (Alessandra Negrini) foi uma das espancadas em Paraíso Tropical. Levou de Ivan (Bruno Gaggliasso) e de Eloísa (Roberta Rodrigues). Em Duas Caras, a tonta da Maria Paula (Marjorie Estiano) deu uma baita surra em Sílvia (Alinne Moraes). Carmem (Natália do Vale) bateu de cinta em Sandra (Danielle Winits), em Páginas da Vida. Chega? E deixar de fora da lista as porradas de Maria do Carmo (Suzana Vieira) em Nazaré (Renata Sorrah), em Senhora do Destino, ou de Maria Clara (Malu Mader) na "cachorra" Laura (Cláudia Abreu), em Celebridade?
Não bastasse o horror da surra que levou de Melissa (Cristiane Torloni), a Yvone de Caminho das Índias apanhou ainda de Sílvia (Débora Bloch). Afinal, o vale-tudo captura a atenção do público, que vibra e tem a alma lavada pelo castigo "justo".
O recurso à violência contra a mulher virou fenômeno em telenovela. Mais do que isso. Tornou-se um padrão de punição, baseado em uma lógica, no mínimo, perigosa. A do "merecimento". A ideia de que uma mulher tem mais é que apanhar por ser safada ou má surge como justificativa nessas ocasiões. E qual é a justificativa de um homem (um marido, digamos) ao apelar para a força física contra sua companheira? E do pai que espanca a filha? Não pensam eles também, no momento de irracionalidade, que têm o direito porque elas, as vítimas de futuros hematomas, fizeram por merecer?
Isso me lembra de outra novela. Poucas personagens foram mais odiadas na tradição dramatúrgica brasileira do que a Dóris (Regiane Alves), de Mulheres Apaixonadas. Não sem razão. Não dá mesmo para gostar de uma garota metida que maltrata os avós, como ela fazia. A trama era toda politicamente correta. Além dos direitos dos idosos, pelos quais clamava, abordou temas delicados como o alcoolismo feminino, o preconceito contra o relacionamento lésbico e as tais "mulheres que amam demais". Condenava com veemência o absurdo da violência doméstica, com as inesquecíveis raquetadas de Marcos (Dan Stulbach) em Rachel (Helena Ranaldi de novo, coitada).
Contudo, na hora de castigar o comportamento inaceitável de Dóris, ninguém relutou em pôr o pai dela, Carlão (Marcos Caruso), para estapear a moça sem dó no último capítulo. Alguém há de explicar por que, nesse caso, a violência contra a mulher era a solução válida?
"Se violência ensinasse a alguém alguma coisa... A gente sabe que onde ela acontece mais, o índice de crimes aumenta", disse uma reticente Letícia Sabatella ao Fantástico, sem mostrar empolgação nenhuma em protagonizar esse tipo de cena, apesar do sucesso de sua personagem.
É claro que existe um componente de prazer sádico movendo o espectador e que telenovela não passa de ficção, mesmo quando se pretende realista e se propõe a debater assuntos cruciais para o "bem" da sociedade. O complicado é a ressonância que ganha esse coro do "merecimento", que ninguém questiona, mas perpetua uma visão brutal contra a mulher.
Interatividade
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