
Soldado da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Nelson Cavaquinho largava seu cavalo para ir tomar um trago com os amigos, entre os quais, Cartola. Isso acontecia quase todas as tardes. Certo dia voltou do bar e a montaria não estava lá. De volta ao quartel, deu de cara com o bicho pastando e com os seus superiores, furiosos de raiva pela irresponsabilidade do soldado adolescente, que mais tarde se tornaria um gênio indomável do samba.
Nascido em 29 de outubro de 1911, Nelson Antônio da Silva foi um irremediável boêmio. Tivesse nascido escritor, seria parceiro de Álvares de Azevedo (1831-1852) expoente da segunda geração do romantismo brasileiro e dividiria com ele a angústia e melancolia de uma vida inteira. Ao menos em sua arte.
De sua casa no Rio de Janeiro, Sérgio Cabral diz à reportagem da Gazeta do Povo que Nelson gostava de uma tristeza, mas não era necessariamente um sujeito triste. O jornalista, crítico e escritor carioca foi um dos amigos próximos do sambista compositor de "Luz Negra" (em parceria com Amâncio Cardoso) e "Juízo Final" (com Élcio Soares). Em seu primeiro disco Depoimento do Poeta, de 1970) há uma faixa inteirinha que traz um diálogo entre os dois.
"Nelson será lembrado pelo que fez. Ele foi um compositor sensacional, sabia fazer letra e música muito bem, e com características próprias. O jeito como ele tocava era o jeito dele de ser", diz Cabral.
Sua maneira de tocar suscita dúvidas entre os mais perfeccionistas. O violão é algo bruto, primordial, rústico. E talvez no contraste entre essa possível falta de técnica estilo seria o nome mais eufemístico e suas letras sensíveis esteja o grande segredo.
"Se Nelson Cavaquinho fosse fazer uma prova de violão, tiraria zero. Agora, quem o viu ao vivo, constatou que ele era gênio", sentencia Cabral, autor de 15 livros sobre o samba e a MPB, entre eles Mangueira Uma Nação Verde e Rosa e Nara Leão Uma Biografia. O compositor, aliás, será relembrado no carnaval deste ano pela Estação Primeira de Mangueira, que dedica a ele o enredo O Filho Fiel, Sempre Mangueira.
Outro revival surge com o lançamento de um disco pela Lua Music com suas canções interpretadas por 20 artistas diferentes, entre eles alguns nomes inusitados, como Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro e Angela Rô Rô. Perto do que se viu ano passado, quando da enxurrada de CDs e de outros produtos por conta do centenário de outros sambistas Noel Rosa, entre eles é pouco. Mas Nelson era assim, um sambista low profile que trocava suas grandiosas músicas por quase nada. "Quando Nelson não tinha dinheiro, e isso acontecia quase sempre, vendia canções para o quitandeiro, o dono do armazém, o leiteiro", conta Cabral. Foi isso que acabou com a parceria que tinha com Cartola, quando este descobriu sua música sendo tocada na rua por um vendedor que "tinha comprado" a parte de Nelson Cavaquinho.
Para o sambista a luz se fez tardiamente. Suas primeiras composições datam da década de 1940, mas foi só em 1960, com gravações de Nara Leão "Luz Negra" foi gravada em 1964 que seria lembrado. Beth Carvalho o ajudou também, com gravações que datam do início da década de 1970.
"Comentar sobre influência é uma coisa subjetiva, mas hoje ouvimos algo aqui e ali, no repertório de Zeca Pagodinho, por exemplo", que lembra algo de Nelson.
Compositores mais novos também não negam a influência de Nelson Cavaquinho, o sambista que não driblou a tristeza. "Tocamos Folhas Secas e algumas outras dele, mas sempre ouvimos bastante. Este samba natural e verdadeiro é muito forte para nós", diz Gustavo Schwartz, integrante do Trio Quintina, um dos nomes importantes do samba curitibano.



