
A pose sossegada dá uma pista do ânimo que Zélia Duncan assumiu em seu mais novo disco, Pelo Sabor do Gesto, um encontro com a brasilidade de Beto Villares e o pop de John Ulhôa. Nono título de sua discografia, interrompe um vazio de cinco anos sem lançar uma obra-solo desde Pré Pós Tudo Bossa Band, período em que se tornou Mutante e dividiu palcos com Simone em Amigo É Casa.
Zélia volta mudada. Um pouco afetada pelo filme Canções de Amor, outro tanto em reação a um período de luto vivido no ano passado, como contou nessa entrevista concedida por telefone à Gazeta do Povo.
No encarte de divulgação do disco Pelo Sabor do Gesto, você propõe perguntas sobre por que lançar um CD, quando essa mídia parece condenada. Realmente houve um momento de dúvida se ainda valeria a pena gravar um CD?
Todo mundo fala que os CDs vão acabar e, de fato, parece caminhar para isso. E a opção pela internet ainda não é uma realidade para todo mundo. No Itunes (site de venda digital não disponível para o público brasileiro), você vê que fora do Brasil se compra música por 99 centavos, em um segundo. Não temos nada parecido, nenhuma opção prática para esse público. Mas não cogitei sair do formato de CD. Sou contratada da Universal, embora a tendência seja ficar independente.
A independência está nos seus planos?
Estou no meu último disco pela Universal e não sei se vamos renovar, se vai ser relevante para eles e para mim. Uso muito a internet para divulgar meu trabalho. Antes de ser lançado, já tinha músicas no myspace e no meu site, meio como uma isca para download.
Quando deixa de ser interessante estar atrelada a uma gravadora?
Não se tem mais os confortos que se tinha. Videoclipe, por exemplo. O Nordeste, principalmente, não tem mais lojas de CD como antigamente, então as gravadoras praticamente não trabalham numa região tao fundamental. Distribuição no Brasil é coisa misteriosa, ninguém faz muito bem, mas a grande gravadora tem mais facilidade e ajuda a pagar o CD. Estou na Universal desde 2000. Sou antiga. É engraçado porque sempre fui precoce, a mais nova da turma. Agora sou uma jovem senhora.
Isso a incomoda de alguma maneira?
Na maior parte das vezes, me divirto. Existem algumas vantagens: uma olhar pra vida e dizer "caramba, todo mundo vai enfrentar o tempo". Não adianta o jovem ser arrogante porque esse é um bem perecível. E ter 44 é um número considerável.
Ao convidar dois produtores para moldarem este disco, John Ulhôa e Beto Villares, você previu qual seria a química da mistura?
Eu queria mesmo era não saber. Eles dois são amigos, o Beto já produziu o John (no Pato Fu MTV ao Vivo), mas sabia também que eram bem diferentes em alguns pontos. O John é mais objetivo, mais pop mesmo. O Beto diz que a gente usa o John, mas o John não usa a gente. Estamos abertos para muitas coisas: eu fiz choro e samba, Beto produziu o Siba e música regional. O John não, é pop e rock-and-roll, mas talentosíssimo. Os dois entendem muito de som. Um dos possíveis méritos desse disco é a sonoridade, que surpreende um pouco.
Você escreveu o prefácio do livro da Fernanda Takai, canta com ela em "Boas Razões", compôs em conjunto com John, além da parceria da produção, e faz um agradecimento terno às conversas com a filha deles, Nina. O seu convívio com a família é mesmo próximo?
Eu finalmente entrei para a família. Conheci o John e a Fernanda numa entrega de prêmio da MTV, que eles ganharam com "Sobre o Tempo" e eu concorria em outra categoria com "Tempestade". Eles deram uma voltinha olímpica no palco, a coisa mais bonitinha, pensei: gostei desses meninos. Achei que a diferença de idade era maior e não é, o John é da minha geração. Por coincidência, naquela semana fui cantar em Belo Horizonte e, no palco, falei da banda maravilhosa que os mineiros tinham, o Pato Fu. No dia seguinte, apareceram no camarim com uma flor. Vejo os dois como sinônimos de gentileza, delicadeza. A gente é muito diferente, mas se dá muito bem, e gravar com o John foi a confirmação disso. O estúdio deles é como a casa do caseiro, a Fernanda aparecia dizendo que era a moça do chá. Pode parecer bobagem, mas esse espírito invadiu o disco, suave e permeado de gentilezas.
Vocês são mesmo diferentes, mas vale lembrar que Mutantes é declaradamente a banda inspiradora do Pato Fu. De alguma forma, essa sonoridade irreverente foi o que a atraiu profissionalmente neles?
É verdade. Sempre fui fã. E me influenciou muito, para chamar o John, o disco da Nara Leão (Onde Brilhem os Olhos Seus), que é um primor, o mais bacama que ouvi no ano passado. Tem liberdade e é moderno sem ser modernoso.
Enquanto isso, o que o Beto Villares trouxe de diferente?
Um pouco mais de brasilidade. "Esporte Fino Confortável", com Chico César, é um funk brasileiro, tem o Beto tocando vilão no meio. Em "Duas Namoradas", chamou o Maurício Alves, que era do Mestre Ambrósio, para tocar congas geniais. É como se eu fosse curadora de mim mesma, fui distribuindo as músicas entre eles.
Você parece mais romântica nesse disco. De onde veio esse estado de ânimo?
Depois que ouvi, falei: "gente, está romântico!". Não era uma homenagem ao amor. Tem uma coisa curiosa. Ano passado foi muito difícil pra mim, perdi uma amiga-irmã. Foi um luto tão profundo que precisei ficar leve, para a vida ficar mais equilibrada.
Você fez duas versões de músicas da trilha sonora de Canções de Amor. O filme teria influenciado também nesse romantismo?
Um personagem morre de repente, é muito jovem e isso é muito chocante no filme. Parando para pensar agora, tem a ver com o que passei no ano passado. O filme me tocou profundamente e aconteceu que as músicas eram de amor. Não paro e penso: está na hora de eu ficar romântica ou mais rock-and-roll. Vou reagindo.



