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Encaixotando Allen

Coleção Woody Allen. Com os filmes Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos (2010), Meia-Noite em Paris (2011) e Para Roma com Amor. Paris Filmes. Preço médio: R$ 49,90. Comédia |
Coleção Woody Allen. Com os filmes Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos (2010), Meia-Noite em Paris (2011) e Para Roma com Amor. Paris Filmes. Preço médio: R$ 49,90. Comédia (Foto: )

Woody Allen faz tantos filmes (em média um por ano), que sua filmografia está constantemente sendo relançada em diversos formatos, organizada em coleções, nas quais seus longas-metragens podem estar agrupados cronologicamente, de acordo com o estúdio ou a distribuidora que a lançou, ou mesmo por temas. A caixa que chega nesta semana às lojas brasileiras reúne seus três trabalhos mais recentes, as comédias Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos (2010), Meia-Noite em Paris (2011) e Para Roma com Amor (2012). Em comum, a trinca tem o fato de nenhum dos títulos ter sido rodado em Nova York, cidade natal do cineasta, que nos últimos anos vem buscando recursos para realizar seus filmes na Europa, onde o entusiasmo pelo cinema que faz continua intacto – ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, onde divide opiniões, muito por conta de críticas a sua vida pessoal. Saiba um pouco sobre cada um dos longas:

London, London

Rodado em Londres, Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos discute temas recorrentes na obra do diretor, como o casamento, a fidelidade e a arte da escrita, seja para o cinema, o teatro ou a literatura. Dessa vez, ganha proeminência na trama a velhice – Allen tinha 74 anos quando o filme foi lançado. No enredo, Helena (Gemma Jones), uma simpática senhora septuagenária, procura uma vidente. Não se conforma com o fato de que o marido, Alfie (Anthony Hopkins), a deixou por uma mulher muito mais jovem depois de quatro décadas de casamento. Em crise com a chegada da idade avançada, Alfie tenta, em vão, reverter o tempo: corre, malha e acaba fisgado por uma prostituta loira e de pernas longas. Ele se torna um clichê, enfim. Paralelamente, Allen também se ocupa de personagens mais jovens, já na casa dos 40 anos, que também enfrentam suas crises. Sally (Naomi Watts), filha de Alfie e Helena, vive uma relação morna como o marido Roy (Josh Brolin), um escritor com bloqueio criativo que se encanta por uma vizinha, Dia (Freida Pinto), que ele vê da janela de seu apartamento. Com um roteiro inteligente, Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos discute a insatisfação inerente à condição humana, dissecando a ideia de que nem mesmo a idade, que supostamente traria sabedoria, impede as pessoas de olhar para o lado e achar, às vezes movidas por ilusões, que podem ser mais felizes do que são.

O melhor

Na caixa que a Paris Filmes está lançando, o melhor dos três filmes é Meia-Noite em Paris, que deu a Allen o Oscar de melhor roteiro original. Além de ter se tornado um dos maiores êxitos comerciais na carreira do cineasta, que encontrou na França, país onde é endeusado, inspiração para uma de suas tramas mais originais e encantadoras. O personagem central aqui é Gil (Owen Wilson), um roterista de Hollywood que também enfrenta uma crise criativa. Insatisfeito com os rumos de sua carreira, dedicada a escrever filmes descartáveis para a indústria, ele sonha dedicar-se à literatura mais séria. E é durante uma viagem a Paris, em companhia da noiva, a frívola e materialista Inez (Rachel McAdams) que Gil vive uma espécie de surto libertador: em uma noite, enquanto vagueia em busca de uma resposta para sua vida, ele é sequestrado de volta à década de 20, ao chamados anos loucos, numa dimensão paralela a sua realidade onde conhece, em carne e osso, os escritores F. Scott Fitzgerald (e sua mulher Zelda) e Ernest Hemingway, seus ídolos, além dos pintores Salvador Dalí e Pablo Picasso e do cineasta Luis Buñuel. Nessa colisão surreal com o passado, Gil vai aos poucos percebendo o ridículo de sua vida e decide redesenhar seu futuro.

Cidade Eterna

O mais fraco da caixa é, sem dúvida, Para Roma, com Amor, que não chega a ser ruim, mas deixa um pouco a desejar pela fragilidade do roteiro. Longinquamente inspirado por Decamerão, clássico de Giovanni Boccaccio (1313-1375) em que várias histórias se entrecruzam na Itália medieval, o filme é um feixe de cinco tramas. Elas até atravessam os caminhos umas das outras, tomando a Cidade Eterna como cenário, mas são independentes. E nem todas funcionam. Allen estrela a melhor delas. Ele é Jerry, um diretor de óperas inseguro e em crise, que vai a Roma com a mulher (Judy Davis) para conhecer o noivo da filha Hayley (Alison Pill), um romano boa pinta chamado Michelangelo (Flavio Parenti), cujo nome o futuro sogro faz questão de sempre pronunciar errado. A má vontade de Jerry se dissipa quando ele descobre que o pai de Michelangelo, vivido pelo tenor Fabio Ar­­miliato, é, potencialmente, um diamante bruto do canto lírico. Mas tem uma limitação: o homem, que ganha a vida como coveiro, só consegue cantar bem quando está debaixo do chuveiro. Em outra trama importante, e mais capenga, Jesse Eisenberg interpreta Jack, um norte-americano aspirante a arquiteto que vive em Roma com a namorada Sally (Greta Gerwig), que comete o erro de convidar uma amiga, Monica (Ellen Page) para visitá-la. Acredita que o rapaz não terá olhos para outra mulher, um erro fatal de estratégia. Jack é uma espécie de alter ego mais jovem de Allen, e encarna a persona neurótica, verborrágica e intelectual que o diretor já viveu em muitos dos seus filmes. O que, para alguns, pode ser um problema, já que, aos 77 anos que completou em dezembro passado, Allen não consegue fazer com que o personagem soe como alguém de sua idade. O mesmo vale para Monica, com quem Jack tem conversas que fazem lembrar os diálogos cheios de referências à literatura, pintura e filosofia entre Allen e Diane Keaton em Noi­­vo Neurótico, Noiva Nervosa (1977) e Manhattan (1979). Alec Baldwin, como o pai um tanto surreal de Jack; Penélope Cruz, no papel da prostituta Anna (que remete um tanto à Cabíria de Fellini), que se envolve em uma hilária comédia de erros; e Roberto Benigni, encarnando mais um sujeito histriônico em sua galeria de tipos, desta vez perseguido por paparazzi graças a uma fama inesperada, compõem um mosaico de tipos humanos que poucos, como Allen, são capazes de tirar da manga. O resultado final é bom? Não exatamente, mas diverte.

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