
Estreia hoje em Curitiba, quase três meses depois de entrar em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro, o competente drama Dúvida, filme do cineasta, roteirista e dramaturgo John Patrick Shanley (vencedor do Oscar de melhor roteiro original por O Feitiço da Lua), baseado em sua peça homônima, ganhadora dos prestigiados prêmios Tony e Pulitzer.
Quando estreou no Manhattan Theatre Club, no circuito off-Broadway, em 23 de novembro de 2004, a primeira montagem de Dúvida causou polêmica em torno de sua temática. A ação se desenrola em 1964, numa escola primária católica que funciona junto à Igreja de São Nicolau, no Bronx, em Nova Iorque. Lá, o carismático padre Flynn é acusado de abuso sexual contra Donald, único aluno negro do colégio. A algoz do sacerdote é a rígida e implacável irmã Aloysius, que discorda de seus métodos liberais de ensino e de sua forma de interação com os estudantes.
O sucesso da peça levou ao inevitável: Shanley foi convidado a dirigir a adaptação de Dúvida para o cinema. A produção foi bem recebida pela crítica e rendeu ao filme cinco indicações ao Oscar: melhor roteiro adaptado, atriz (Meryl Streep), ator coadjuvante (Philip Seymour Hoffman) e atriz coadjuvante (Amy Ryan e Viola Davis).
Transposição quase literal do texto original para o cinema, Dúvida, como já era de se esperar, se sustenta no ótimo texto e nas atuações do elenco. Embora a irmã Aloysius de Meryl Streep por vezes pareça unidimensional demais, exagerando no tom autoritário e até cruel da personagem, a atriz tem também alguns momentos brilhantes, como o confronto final com Flynn, um sutil trabalho de composição do sempre ótimo Hoffman. Amy Ryan, como a ingênua irmã James e Viola Davis, no papel da mãe de Donald, também brilham em grandes atuações.
O maior mérito de Dúvida é justamente o de não explicar demais a história, deixando em aberto a questão em torno da qual toda a trama é construída: Flynn molestou Donald ou não? O desfecho é ambíguo, relativizando tanto a fúria de irmã Aloysius quanto a bondade e o carisma do padre. Deixa claro que os seres humanos são bem mais complexos do que supõe nossa vã filosofia. GGG1/2



