
E o Vento Levou (1939), Entre Dois Amores (1985), O Paciente Inglês (1996) e Titanic (1997). O que esses três longas-metragens têm em comum, além de fato terem recebido o cobiçado Oscar de melhor filme? Embora sejam obras distintas, algumas características fundamentais as aproximam. São épicos românticos, focados em arrebatadas e turbulentas histórias de amor. E os quatro têm panos de fundo históricos, que vão da sangrenta Guerra de Secessão (E o Vento Levou) ao trágico naufrágio de um já mítico transatlântico nas águas geladas do Atlântico Norte (Titanic).
A poucos meses do anúncio dos indicados ao Oscar 2009, mais uma superprodução de época tenta um lugar nessa categoria de dramas caudalosos que costumam fazer a cabeça dos integrantes da Academia de Artes e Cências Cinematográficas de Hollywood. Trata-se de Austrália, quarto filme do inventivo diretor Baz Luhrmann, um dos dos responsáveis pela ressurreição do gênero musical com seu visionário Moulin Rouge! (2001).
Com estréia prevista para 23 de janeiro no Brasil, Austrália entra em cartaz nesta semana nos cinemas americanos e já é apontado como um dos favoritos ao Oscar. Motivos não faltam para tal ambição. A produção, cujo orçamento divulgado é de US$ 125 milhões, é a mais cara já rodada no país que lhe empresta o título e parece ter sido pensada milimetricamente para trinufar na supercompetitiva temporada de "filmes sérios", que disputam a atenção do público, das associações de críticos e da Academia, é claro.
Com roteiro original de Luhrmann e Stuart Beattie, Austrália tem como protagonista a voluntariosa lady Sarah Ashley (Nicole Kidman, vencedora do Oscar de melhor atriz por As Horas), rica aristocrata inglesa que herda um rancho de criação de gado no norte australiano durante a Segunda Guerra Mundial. Com perfil claramente inspirado em Scarlett OHara, heroína de E o Vento Levou, a personagem é forçada a despir sua arrogância e empáfia ao descobrir que, se não conduzir seu rebanho de duas mil cabeças para outra área, perderá os animais e sua propriedade, por conta de invasores que pretendem tomar-lhe os bens, apostando na sua aparente fragilidade feminina.
Para enfrentar o enduro, Sarah faz um pacto com o peão Drover (Hugh Jackman, o Wolverine da série X-Men), sujeito rude e sem modos por quem vai acabar se apaixonando durante uma acidentada travessia por regiões inóspitas do território quase continental da Austrália em meio a bombadeios japoneses e intempéries climáticas.
A premissa do romance entre desiguais, que une mulheres refinadas a tipos mais rústicos em paisagens exóticas, não é nem um pouco original. Entre Dois Amores, por exemplo, conta a história de amor vivida pela escritora dinamarquesa Karen Blixen (Meryl Streep) e o aventureiro Denys Hatton (Robert Redford), tendo como cenário a savana do Quênia. O que parece ser o diferencial de Austrália é o toque autoral de Baz Luhrmann, um cineasta cuja obra (leia quadro ao lado) sobressai pela visualidade basta conferir a transfiguração de Verona em sua muito pessoal e genial releitura de Romeu e Julieta, de William Shakespeare.
Vale também lembrar que o australiano, hoje com 46 anos, tem o amor ou sua impossibilidade como foco temático de sua obra. Diretor de uma superlogiada montagem de La Bohème, opera de Puccini que inspirou Moulin Rouge!, Luhrmann, por trás de seu cinema pós-moderno de referências, intertextualidades e subversões visuais, pulsa um coração escancaradamente romântico. Dele, provavelmente, depende o êxito (ou não) de Austrália.













