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Patrimônio

Era uma vez na Manchete

Um leilão no Rio de Janeiro evoca os anos dourados de um dos maiores impérios da comunicação no Brasil

Adolpho Bloch e Katharine Graham, proprietária do Washington Post |
Adolpho Bloch e Katharine Graham, proprietária do Washington Post (Foto: )
O curitibano Muggiati, que foi diretor de redação de Manchete, entrevista atriz Gina Lollobrigida |

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O curitibano Muggiati, que foi diretor de redação de Manchete, entrevista atriz Gina Lollobrigida

Na redação: Roberto Muggiati, Carlos Heitor Cony e o cineasta italiano Franco Zeffirelli |

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Na redação: Roberto Muggiati, Carlos Heitor Cony e o cineasta italiano Franco Zeffirelli

Darcy Ribeiro contou a história em estilo telegráfico: "[Em 1952] Adolpho Bloch lança Manchete, que deslumbra o público. Na verdade, queria é desbancar o Cruzeiro com um jornalismo fotográfico colorido, moderno, dinâmico e ousado. Desbanca." Adolpho não era culto, mas muito esperto. Emprenhava pelo ouvido, como diziam. Cercou-se de talentos como Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto, Antônio Maria, Vinícius, Drummond, e fez da sua revista um misto de crônica do soçaite e suplemento literário – uma fórmula única e imbatível. Só ele seria capaz de juntar as "dez mais" do Ibrahim Sued com a crônica apocalíptica de Rubem Braga "Ai de Ti, Copacabana?"

No começo não era só Adolpho, havia os irmãos Arnaldo e Boris. Mais russos do que judeus em seu perfil emocional, Otto Lara Resende, editor da revista, os batizou de Os Irmãos Karamablochs. Certa vez, um deles renovou a frota de máquinas de escrever, com Remingtons reluzentes. Esqueceu de consultar os outros dois e foi máquina voando por toda a redação num inusitado potlacht. A Providência sempre esteve do lado de Adolpho: Arnaldo morria em 1957, Boris em 1959, e ele passava a reinar supremo. Gráfico por vocação e berço (adolescente, vendia na Ópera de Kiev libretos impressos pelo pai), impôs à Manchete um padrão de bom gosto que era o "moderno clássico", uma cooptação, pela sociedade de consumo do pós-guerra, das principais rebeliões estéticas da primeira metade do século.

A sede da Manchete ficava na Rua Frei Caneca, ao lado da penitenciária, e muitas vezes a redação se transformava em corredor de fuga para marginais de alta periculosidade. A revista tinha tudo a ver com o Rio de Janeiro sofisticado. Nasceu daí o sonho de ter uma sede na Zona Sul e Adolpho acabou sendo o único empresário jornalístico carioca a ter esse privilégio. E não poderia ter escolhido melhor: um terreno com vista para a entrada da baía de Guanabara na Rua do Russell, na Praia do Flamengo. Durante anos, disputou a dinamite o espaço com a pedra dura. Cavou uma boa fatia de terreno e construiu o castelo dos seus sonhos, um bloco de dez andares em mármore, alumínio e vidro, com a grife de Oscar Niemeyer, e mudou as redações para lá no final do ano emblemático de 1968. Os anos do Russell – que duraram até a falência da editora, em agosto de 2000 – foram a época de ouro da Manchete e do império de comunicação que ela capitaneou, com dezenas de revistas, fascículos, uma agência de fotos, uma editora de livros, e redes de rádio e televisão por todo o país. Em 1980, veio o segundo prédio, no local onde ficava o palacete do jornalista José Soares Maciel Filho, conhecido como o ghost-writer da carta-testamento de Getúlio Vargas. Era um prolongamento do primeiro prédio, com a mesma fachada do Niemeyer e alguns metros mais extenso. Adolpho cobiçava ainda o terreno ao lado, de uma casa antiga que, pelos parâmetros atuais, seria tombada. Um contínuo da Manchete, mulato e zarolho – o "Sammy Davis Jr." – prometeu ao "seu" Adolpho que convenceria a dona a vender a casa. Em 1986, uma terceira fatia era acrescida ao complexo do Russell. (Ninguém ficou sabendo se o Sammy levou o seu, ou ficou a ver navios...)

Foi assim que Adolpho e o seu mirabolante bunker à beira-mar plantado entraram para a lenda: já em 1969, uma das mensagens dos seqüestradores do embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick, foi colocada na estátua de Bruno Giorgi em frente ao prédio – conhecida como o "peru do Adolpho". Ainda em 1969, menos de um mês depois de ter-se tornado o primeiro homem a pisar na Lua, o astronauta Neil Armstrong era recebido para um concorrido almoço no Russell. Outros regabofes e outra celebridades se seguiriam. Em 1971, no auge do feminismo, Adolpho se imiscuiu numa entrevista de Betty Friedan com jornalistas da casa. A escritora detectou imediatamente o "macho-chauvinista" em Adolpho, mas, como era judia, ele se defendeu botando a culpa na sua "iídiche mame".

Em 1973, Adolpho me arrancou do fechamento da edição de Carnaval para entrevistar "o cineasta de Hollywood, aquele." Inicialmente confundido com Billy Wilder, o cineasta era William Wyler, diretor de clássicos como Jezebel, Os Melhores Anos de Nossa Vida e Ben-Hur). Seguiram-se Liza Minnelli, no auge da fama de Cabaré, e Roman Polanski e Jack Nicholson, o diretor e o ator principal de Chinatown. A amizade com Nicholson custaria a Polanski o eterno desterro dos EUA, depois de ser flagrado na casa do ator em Los Angeles com uma menor de idade.

Quase 20 anos depois, casado com a ninfeta Emmanuelle Seigner, estrela do seu filme Lua de Fel, Polanski voltou ao Russell para tomar um chá com Adolpho. Antes de entrar no prédio, o casal – mais para fel do que para mel – ficou discutindo meia-hora na calçada, sob o olhar vigilante do Marechal, o chefe dos contínuos. Ao subir para o chá, Polanski desdenhou da baixela de prata, da porcelana inglesa e dos saborosos quitutes e disse que queria tomar era uma boa vodca polonesa. Providenciada a Wyborowa glacial (também favorita do Papa Karol Wojtyla), Polanski e Adolpho se puseram a falar em russo, para estupor dos demais convidados.

Paul Mazursky, que veio filmar no Brasil Luar sobre Parador, com Sônia Braga, descobriu que tinha uma parente próxima na Bloch, Tamara Melman, secretária do Departamento de Engenharia. Também vieram filmar no Brasil Demi Moore e Bo Derek, e teriam caído nas malhas de um repórter da Manchete – negro e orgulhoso da sua pele – que alegou tê-las acrescentado à sua galeria de troféus sexuais, que incluía ainda, de um Carnaval dos anos 1950, Kim Novak. (Ou seja, três da lista das "Cem Mulheres mais Sexy do Século 20", um recorde digno do Livro Guinness).

A realeza internacional também frequentou o Russell. A princesa Ashraf, irmã do xá da Pérsia, presenteou com um relógio de pulso milionário Justino Martins, editor da Manchete, para o desespero do Adolpho; a princesa Dewi Sukarno, da Indonésia, fez poses de gata sexy na grande mesa do restaurante da diretoria, a mesma mesa onde evoluiria anos depois a musa pornô Cicciolina; e a sóbria princesa Alexandra, prima da rainha Elizabeth, elogiou protocolarmente as mangas da sobremesa. A partir de então, toda vez que alguém viajava para Londres, Adolpho forrava a sua bagagem de "mangas para a princesa," mal sabendo que elas seriam barradas pela alfândega britânica.

O inventor da vacina anti-pólio, Albert Sabin; o pioneiro dos transplantes do coração, Christiaan Barnard; o pai da aeróbica, Kenneth Cooper; músicos como Mstislav Rostropovich, Zubin Mehta, Placido Domingo (que fez um dueto na sacada do restaurante com o então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, diletante do bel canto); o bailarino Mikhail Baryshnikov, o cenógrafo e cineasta Franco Zeffirelli, escritores como E.L. Doctorow, Sidney Sheldon, Jean Genet, Doris Lessing (Prêmio Nobel de Literatura); a dona do Washington Post, Katherine Graham, logo depois que a cobertura do Caso Watergate por seu jornal derrubou o presidente Nixon — enfim, toda uma legião de ricos e famosos foi festejada e almoçou ou jantou na "casa de Adolpho Bloch" que, em suas próprias palavras, era um grande restaurante que por acaso também publicava dezenas de revistas e abrigava uma cadeia de rádio e de televisão, em escala nacional.

O ex-presidente Juscelino Kubitschek tinha um escritório exclusivo no prédio do Russell, comparecia diariamente e assinava resenhas de livros para a Manchete. JK inaugurou também um novo uso para o prédio da Bloch. Quando morreu num desastre de carro na Via Dutra, Adolpho disputou com Niomar Muniz Sodré, do Museu de Arte Moderna, o direito de ter o velório do fundador de Brasília. Com a ajuda de Carlos Lacerda – uma aliança inusitada –, Adolpho expôs à visitação pública os corpos de JK e do seu motorista no saguão nobre da Manchete, debaixo da monumental escultura-árvore de Frans Krajcberg. A prática ficaria consagrada, mas só para uns happy few – se é que a morte é feliz – David Nasser em 1980, Justino Martins em 1983 e o próprio Adolpho, em 1995. A morte do patriarca, na madrugada do Dia da Bandeira, e seu enterro numa segunda-feira chuvosa em que o Rio comemorava pela primeira vez o feriado do Zumbi, prenunciaram o declínio do império que ele criou.

Com suas portas monumentais fechadas e lacradas pelo Juizado da 5ª Vara de Falências e Concordatas em 2 de agosto de 2000, o prédio da Manchete — que vai a leilão neste dia 17 para saldar dívidas trabalhistas — ficou à beira-mar cravado como um icebergue negro, uma imensa caixa-preta guardando memórias a serem descerradas aos poucos, por este ou aquele, enquanto existir ainda alguém para lembrar.

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