Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Bienal do Livro

Escritores discutem rumos da biografia

Ruy Castro e Arnaldo Bloch conversam sobre a matéria de que é feito o gênero que, no Brasil, ainda é pouco (ou mal) explorado

Ruy Castro e... | Rodolfo Bührer/Gazeta do Povo
Ruy Castro e... (Foto: Rodolfo Bührer/Gazeta do Povo)
...e Arnaldo Bloch: mesa-redonda sobre os limites da biografia, gênero que tem uma longa tradição em língua inglesa |

1 de 1

...e Arnaldo Bloch: mesa-redonda sobre os limites da biografia, gênero que tem uma longa tradição em língua inglesa

O homem que biografou Gar­­rin­­cha, Nelson Rodrigues e Carmen Miranda conversa com o que escreveu sobre a família Bloch, uma gigante na história do jornalismo brasileiro. Ruy Castro e Arnaldo Bloch são protagonistas de uma das mesas-redondas mais aguardadas da Bienal do Livro de Curitiba, às 19h30 da próxima terça-feira.

A proposta dos organizadores do evento é colocar os autores para discutir os limites da biografia – ou a falta deles. Nessa lógica, os li­­vros do gênero oscilariam entre his­­tória e bisbilhotice? Seriam golpes publicitários dos biografados? O mercado editorial tem espaço para todo tipo de coisa, inclusive para as aberrações na linha "Memórias de um Big Brother".

No Reino Unido, o jornal The Guardian banca um prêmio literário que serve de referência no país – é tão influente quanto o próprio diário. Neste ano, ele premiou a biografia de um mendigo narrada de trás para frente. Stuart: a Life Backwards (Stuart: uma vida de trás para frente), inédito no Brasil, é um caso a ser analisado.

O autor, Alexander Masters, conheceu o biografado numa dessas casas que atendem desabrigados. Stuart Shorter tinha uma personalidade magnética (tinha porque foi atropelado por um trem antes do livro ser publicado) e desafiava o escritor a descobrir o que teria "assassinado" o menino que ele foi.

Durante anos, Masters teve de li­­­­­­­­dar com lacunas imensas, partes da vida de Shorter que este apagou da memória por completo – ou ao me­­­­nos dizia ter apagado. Quando se sentou para escrever, tentou usar a narrativa tradicional, começando pelos primeiros anos de vida etc.

Ao mostrar um esboço para Shorter, ele o achou um "lixo entediante" e disse que o escritor deveria contar a história de sua vida como se fosse um romance policial, ou um thriller. Assim surgiu a ideia de narrar a história de trás para frente.

Entre os elogios que Masters recebeu – e é difícil encontrar uma crítica negativa ao livro na im­­prensa inglesa –, a maioria é unânime em dois pontos: a escolha do personagem, um sujeito mais ou menos comum, e o modo de narrar. A moda bem que poderia pegar no Brasil, um país em que as biografias têm público – basta ver que os títulos de Ruy Castro e os de Fernando Morais (que cancelou sua vinda a Curitiba na última hora) sempre alcançam as listas de mais vendidos. Carmen, sobre Carmen Miranda, e O Mago, a respeito de Paulo Coelho, são os exem­­plos mais recentes.

"A Inglaterra tem uma longa tradição de grandes biógrafos e bio­­grafias. Lá todas as variações são possíveis. No Brasil ainda estamos tentando estabelecer o bê-a-bá, que é a biografia objetiva, baseada em informações, nar­­rada de modo neutro e impessoal", diz Castro.

Sobre as piruetas estilísticas de Masters, ele diz que a moda pode até se alastrar. "Sei lá, de repente alguém aqui pega esse veio e faz uma coisa interessante." Coin­­­­­cidência, o próprio Castro pensou em escrever uma biografia de trás para frente nos anos 70. E era também sobre um Stuart!, o filho de Zuzu Angel, morto pela ditadura militar.

"Já tinha até editora. Escrevi umas 30 páginas, dei para um amigo ler, o romancista Marcos Santarrita, e ele disse que era a pior coisa que já tinha visto. Reli, concordei com ele, rasguei e nunca mais pensei no assunto", diz.

Para Bloch, a ideia de pegar um indivíduo desconhecido para biografar não é nova. "O new journalism mexeu bastante com isso, e Gay Talese fez vários perfis nessa ca­­tegoria, e vai bem na direção da­­quela tendência dos historiadores contemporâneos de estudar o curso da História através da ‘vida privada’. Se a moda pega, não sei, mas pluralidade é sempre bom", diz.

Explorando caminhos incertos para a biografia, Masters transita perigosamente por jornalismo, literatura e história. A mistura desses três campos pode parecer complexa, mas Ruy resolve a situação numa frase: "jornalismo para apurar as informações, história para organizá-las e literatura para escrevê-la". "Mas, na prática, a coisa não se dá dessa forma tão rígida, e o biógrafo é que tem de ser um composto de cada uma dessas disciplinas para ser um autor de verdade e fazer jus ao biografado", diz o autor de Estrela Solitária, sobre o Garrincha.

"Na biografia clássica, jornalismo e história se unem no bojo do livro e a literatura entra mais como um recurso estilístico. Numa biografia como a que escrevi, polifônica e coletiva, as diversas narrativas e a vida das pessoas é já romanesca na fonte, independentemente da ação do autor, o que torna tudo mais literário, mesmo com a pesquisa envolvida", diz Bloch sobre o seu livro, Os Irmãos Karamabloch.

Serviço

1ª Bienal do Livro de Curitiba. Expo Unimed Curitiba – Universidade Positivo (R. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300 – Campo Comprido). Todos os dias, das 9 às 21h30. Até 4 de setembro. Ingresso: R$ 2 e R$ 1 (meia). Idosos e crianças têm entrada gratuita. Escolas e grupos poderão se inscrever para visitação. Informações com Cristiane Scheffer, pelo telefone (41) 3340-4349 ou pelo e-mail agendabienal@agenciaesfera.com.br ou no site www.bienaldolivrocuritiba.com.br. O ingresso dá acesso a todo o complexo do evento, com 8,5 mil metros quadrados.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.