
O homem que biografou Garrincha, Nelson Rodrigues e Carmen Miranda conversa com o que escreveu sobre a família Bloch, uma gigante na história do jornalismo brasileiro. Ruy Castro e Arnaldo Bloch são protagonistas de uma das mesas-redondas mais aguardadas da Bienal do Livro de Curitiba, às 19h30 da próxima terça-feira.
A proposta dos organizadores do evento é colocar os autores para discutir os limites da biografia ou a falta deles. Nessa lógica, os livros do gênero oscilariam entre história e bisbilhotice? Seriam golpes publicitários dos biografados? O mercado editorial tem espaço para todo tipo de coisa, inclusive para as aberrações na linha "Memórias de um Big Brother".
No Reino Unido, o jornal The Guardian banca um prêmio literário que serve de referência no país é tão influente quanto o próprio diário. Neste ano, ele premiou a biografia de um mendigo narrada de trás para frente. Stuart: a Life Backwards (Stuart: uma vida de trás para frente), inédito no Brasil, é um caso a ser analisado.
O autor, Alexander Masters, conheceu o biografado numa dessas casas que atendem desabrigados. Stuart Shorter tinha uma personalidade magnética (tinha porque foi atropelado por um trem antes do livro ser publicado) e desafiava o escritor a descobrir o que teria "assassinado" o menino que ele foi.
Durante anos, Masters teve de lidar com lacunas imensas, partes da vida de Shorter que este apagou da memória por completo ou ao menos dizia ter apagado. Quando se sentou para escrever, tentou usar a narrativa tradicional, começando pelos primeiros anos de vida etc.
Ao mostrar um esboço para Shorter, ele o achou um "lixo entediante" e disse que o escritor deveria contar a história de sua vida como se fosse um romance policial, ou um thriller. Assim surgiu a ideia de narrar a história de trás para frente.
Entre os elogios que Masters recebeu e é difícil encontrar uma crítica negativa ao livro na imprensa inglesa , a maioria é unânime em dois pontos: a escolha do personagem, um sujeito mais ou menos comum, e o modo de narrar. A moda bem que poderia pegar no Brasil, um país em que as biografias têm público basta ver que os títulos de Ruy Castro e os de Fernando Morais (que cancelou sua vinda a Curitiba na última hora) sempre alcançam as listas de mais vendidos. Carmen, sobre Carmen Miranda, e O Mago, a respeito de Paulo Coelho, são os exemplos mais recentes.
"A Inglaterra tem uma longa tradição de grandes biógrafos e biografias. Lá todas as variações são possíveis. No Brasil ainda estamos tentando estabelecer o bê-a-bá, que é a biografia objetiva, baseada em informações, narrada de modo neutro e impessoal", diz Castro.
Sobre as piruetas estilísticas de Masters, ele diz que a moda pode até se alastrar. "Sei lá, de repente alguém aqui pega esse veio e faz uma coisa interessante." Coincidência, o próprio Castro pensou em escrever uma biografia de trás para frente nos anos 70. E era também sobre um Stuart!, o filho de Zuzu Angel, morto pela ditadura militar.
"Já tinha até editora. Escrevi umas 30 páginas, dei para um amigo ler, o romancista Marcos Santarrita, e ele disse que era a pior coisa que já tinha visto. Reli, concordei com ele, rasguei e nunca mais pensei no assunto", diz.
Para Bloch, a ideia de pegar um indivíduo desconhecido para biografar não é nova. "O new journalism mexeu bastante com isso, e Gay Talese fez vários perfis nessa categoria, e vai bem na direção daquela tendência dos historiadores contemporâneos de estudar o curso da História através da vida privada. Se a moda pega, não sei, mas pluralidade é sempre bom", diz.
Explorando caminhos incertos para a biografia, Masters transita perigosamente por jornalismo, literatura e história. A mistura desses três campos pode parecer complexa, mas Ruy resolve a situação numa frase: "jornalismo para apurar as informações, história para organizá-las e literatura para escrevê-la". "Mas, na prática, a coisa não se dá dessa forma tão rígida, e o biógrafo é que tem de ser um composto de cada uma dessas disciplinas para ser um autor de verdade e fazer jus ao biografado", diz o autor de Estrela Solitária, sobre o Garrincha.
"Na biografia clássica, jornalismo e história se unem no bojo do livro e a literatura entra mais como um recurso estilístico. Numa biografia como a que escrevi, polifônica e coletiva, as diversas narrativas e a vida das pessoas é já romanesca na fonte, independentemente da ação do autor, o que torna tudo mais literário, mesmo com a pesquisa envolvida", diz Bloch sobre o seu livro, Os Irmãos Karamabloch.
Serviço
1ª Bienal do Livro de Curitiba. Expo Unimed Curitiba Universidade Positivo (R. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300 Campo Comprido). Todos os dias, das 9 às 21h30. Até 4 de setembro. Ingresso: R$ 2 e R$ 1 (meia). Idosos e crianças têm entrada gratuita. Escolas e grupos poderão se inscrever para visitação. Informações com Cristiane Scheffer, pelo telefone (41) 3340-4349 ou pelo e-mail agendabienal@agenciaesfera.com.br ou no site www.bienaldolivrocuritiba.com.br. O ingresso dá acesso a todo o complexo do evento, com 8,5 mil metros quadrados.




