
São Paulo - Traços japoneses, vocais agudos e um pouco menos de timidez do que a costumeira entre nipônicos. A combinação transformou a paranaense Lissah Martins, segundo ela mesma, em protagonista do musical Miss Saigon, em São Paulo, no ano passado. O espetáculo saiu de cartaz, mas ela continuou no centro das atenções. Há quatro meses ela é a garota que encontra o amor nas garras de um monstro na montagem de A Bela e a Fera.
Mesmo quando todas as luzes do Teatro Abril se acendem sobre ela, a atriz e cantora sente o alívio de ter deixado para trás a superexposição pública dos tempos em que era conhecida como "a japonesinha do Rouge". Lissah chegou à banda teen, formada no reality show Popstars, depois de testar a voz no circuito de concursos de música oriental durante a infância, no norte paranaense.
Nascida em 1984 na cidadezinha de Sertanópolis, perto de Londrina, Lissah ainda pequena se mudou para Rolândia, nas redondezas. Adolescente, entrou para uma banda de baile. Aos 17, o trabalho já rendia um dinheiro e a garota, convencida pelo avô de que nascera para cantar, em vez de seguir os passos paternos na medicina, decidiu sair de casa à procura de uma gravadora.
Os pais não impediram a busca, mas foram juntos. "Meio contra a minha vontade", conta à reportagem, no "intervalo" entre duas sessões de A Bela e a Fera, enquanto janta, se maquia, posa para o fotógrafo e responde as perguntas sobre sua vida, também meio a contragosto, ao menos em princípio. Expor sua intimidade não lhe agrada nem um pouco.
Mas foi exatamente o que aconteceu alguns meses depois de desembarcar no Rio de Janeiro. Viu o anúncio do reality show, refez as malas e partiu para São Paulo para enfrentar 30 mil inscritas. Não sonhava com o atalho, mas aproveitou a chance."Achava que em algum momento seria eliminada, mas o tempo que ficasse ali talvez fosse suficiente para encontrar alguém que investisse na minha carreira-solo". Acabou vencedora, assinando contrato com outras três meninas para gravar quatro CDs. "Tive sorte, ganhei tudo pronto".
Foram quatro anos de "faculdade". Aprendizado intenso e sucesso entre crianças e adolescentes. Essa última parte incomodava. "Ter de abrir mão da privacidade é um preço muito caro a pagar, descobri que não estou disposta. Gosto de trabalhar com música, mas não nasci para a fama", desabafa. "Sou bem reservadona, não sou muito sociável. Não gosto de muita bagunça, a não ser com a minha rodinha de amigos." Nesse caso, o ator Ricardo Vieira, parceiro em cena, confirma: "Lissah é muito divertida, a gente vive dando risada".
Quem se lembra que a japonesa do Rouge se chamava Patrícia, tem razão. Na certidão, Patrícia Lissa Kashuaba Martins. Prefere o segundo nome, mas a equipe de produção da banda bateu o martelo e não lhe deu escolha. A falta de autonomia, inclusive musicalmente, ajudou a decidir por não renovar o contrato do quarteto.
Por seis meses, Lissah fez shows-solo com repertório pop em uma casa paulista. O teste para Miss Saigon apareceu e as audições foram "tranquilas". Os ensaios é que deram trabalho à iniciante, que nunca havia feito uma aula de teatro. "Eu não entendia direito o que o diretor queria que eu fizesse", conta. Não sabe citar exemplos. "As coisas que você me pergunta da época do Rouge, às vezes não me lembro. Tudo que é meio traumático, meu subconsciente deleta."
Quanto ao futuro, o mundo dos musicais lhe interessa, mas não é garantido. A próxima produção, Cats, exige uma habilidade que não tem, a dança. Lissah não se preocupa, muito menos se considera atriz. Confessa que gostaria de fazer cinema. Enquanto isso, encara de quarta a domingo uma das histórias que mais a encantava na infância assim como Aladim e A Pequena Sereia. Depois dos paulistas, paranaenses são o segundo maior público do espetáculo.
O sonho da carreira-solo como cantora fica para depois. Mas sem multidões gritando seu nome. "Prefiro ficar mais escondidinha mesmo".
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A repórter viajou a convite da produção do evento









