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Cinefilia

Eu amo cinema

Inspirado no estudo do francês Antoine de Baecque, o Caderno G Ideias discute o que move aqueles cujas vidas não seriam as mesmas sem os filmes

 | Ilustração: Osvalter Urbinati Filho
(Foto: Ilustração: Osvalter Urbinati Filho)

A "paixão íntima" pelo cinema na França dos anos 1960 será sempre uma referência. No filme Os Sonhadores (2003), o diretor Bernardo Bertolucci faz uma homenagem à época e mostra o trio central de personagens, jovens de seus 20 e poucos anos, discutindo fervorosamente sobre quem era o melhor comediante: Buster Keaton ou Charlie Chaplin? Esse tipo de conversa é perfeita para caracterizar a cinefilia, a dedicação desmedida ao cinema.

A Cosac Naify publica no Brasil o livro do crítico e historiador Antoine De Baecque, francês que trabalhou na legendária revista Cahiers du Cinéma e escreveu biografias de François Truffaut (com Serge Toubiana, traduzida pela Record) e Jean-Luc Godard. Cinefilia reúne artigos que tentam dar conta de um episódio da história francesa – o período em que um grupo pequeno de críticos deu ao cinema o peso de arte, defendendo os filmes de diretores até então considerados comerciais, notadamente os de Alfred Hitchcock e Howard Hawks.

O estudo de De Baecque retrata um tempo que se foi e deixou para trás uma multidão marcada pelas saudades. Agora, é possível acessar filmes raros pela internet, ou ver produções em casa antes que entrem em cartaz no circuito comercial de salas. "Se tudo está aí, tudo é possível, tudo está dado, falta a dificuldade, a raridade, que são as primeiras condições para a verdadeira criação", diz De Baecque, em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, feita por e-mail.

Com as facilidades de hoje, o que define um cinéfilo? Algumas coisas nunca mudam. Numa conversa, se alguém usa o título original de um filme em vez de sua tradução em português (Black Swan e não Cisne Negro, por exemplo), pode saber, é um apaixonado. Em geral, um cinéfilo costuma ler sobre cinema e sai de casa sabendo o que quer ver, enquanto a maioria escolhe o programa pelo horário da sessão.

Por causa da internet – e isso não acontece só com o cinema –, há uma preponderância da quantidade sobre a qualidade. "O cinéfilo de hoje diz ‘eu vi e você não’, ou ‘eu vi antes’", diz Patrícia Cardoso, professora de Letras da Universidade Federal do Paraná que realiza pesquisas ligadas ao cinema.

A paixão por essa arte, de acordo com Patrícia, tem a ver primeiro com o desejo de estar na sala escura. "Quando você entra na sala de projeção, o tempo que você carrega cessa. O que há é o tempo e o espaço que o cinema tem para dar", diz a pesquisadora.

Mais do que assistir a uma infinidade de filmes, um cinéfilo sustenta obsessões – ele vê várias vezes o mesmo filme. Na comédia romântica Mensagem para Você (1998), Joe Fox, o personagem de Tom Hanks, é fanático pelo clássico mafioso de Francis Ford Coppola, realizado em 1972. Alguém pergunta o motivo da predileção e ele responde: "O Poderoso Chefão é o I-Ching. É a soma de toda a sabedoria. É a resposta para qualquer pergunta. O que eu devo levar para viagem nas férias de verão? ‘Deixe a arma, leve o cannoli’".

A frase resume a filosofia cinéfila: um filme é capaz de conter a vida. Ele tem um poder transformador que não se perde, não importa o formato da tela. No entanto, as gerações desapegadas da sala escura ignoram algo caro para os cinéfilos mais velhos. Ir ao cinema, para o diretor italiano Federico Fellini, era como ir à igreja.

"Da mesma forma que o catolicismo perdeu o seu sentido dramatúrgico, viu as igrejas se esvaziarem e passou a comungar com outros meios de comunicação de massa (caso do fenômeno padre Marcelo – Deus é dez, mas o CD é 15), o cinema também dessacraliza-se pouco a pouco. A sala de projeção deixa de ser o santuário do cinema", escreveu Walter Salles, num texto publicado em dezembro de 2000 e incluído no livro Na Estrada, de Marcos Strecker (Publifolha, 2010).

Salles diz que o público vai ao cinema também "para viver outras vidas, rir, chorar, se emocionar ou exorcizar a morte", para participar de um evento coletivo e ritualizado.

Sem a sala de projeção, perde-se um tanto do ritual, o evento deixa de ser coletivo, mas a procura por emoções é a mesma. Nesse aspecto, o cinema está perto da literatura. Certa vez, o diretor de Volver, Pedro Almodóvar, comentava a influência daninha de meios como a televisão. Num raciocínio genial, o espanhol disse que o fascínio exercido pelo cinema tem a ver com o fato de a tela ser maior do que você.

Talvez isso explique a preferência de alguns cinéfilos que, mesmo tendo acesso à internet, esperam para ver o filme na tela grande. Depois, se o filme os encanta, querem revê-lo seja onde for. Compram o DVD, tentam conseguir o cartaz, leem o livro e o roteiro.

Uma das obsessões de Patrícia foi Blade Runner – O Caçador de Androides (1982). Ela nem sequer tenta calcular quantas vezes o viu. Por que ele é especial? "Porque a vida está ali", responde e, provocada, cita um exemplo. A cena em que Batty, o replicante vivido por Rutger Hauer, se sacrifica para salvar Rick, o caçador (Harrison Ford). À beira da morte e sem alardear o feito, Batty lista os acontecimentos incríveis que testemunhou, coisas que os humanos não seriam capazes de compreender. "Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo... Como lágrimas na chuva... Hora de morrer."

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