
Ao abrir o livro de fotos e se deparar com o trabalho de Araquém Alcântara, é fácil perceber como este paulistano vê o mundo. As imagens, verdadeiras poesias em preto e branco, ganham ainda mais intensidade quando se conversa com o fotógrafo e ouve-se, por exemplo, a seguinte frase. "O meu livro é o exercício de uma vertigem. É um livro de maturidade. Não sou mais fotógrafo da natureza, sou simplesmente fotógrafo".
Reconhecido por ser o pioneiro da chamada "fotografia de natureza" no Brasil, Alcântara agora quer, com seu novo livro também simplesmente intitulado Araquém Alcântara: Fotografias , "se libertar dessa amarra que às vezes engessa".
Por isso há também imagens urbanas. De um trem em São Paulo. De uma calçada em Belém. "Não havia um tema, algo a ser buscado. O que minhas fotografias contam são poéticas de luz", diz o paulistano, citando Werner Bischof (1916-1954), fotógrafo suíço que se tornou conhecido por conseguir dar características mais humanas a imagens que ainda eram sangrias do pós-guerra na Europa. "Já tive resistências ao urbano. Agora não tenho mais. Me libertei com persistência, alento e transpiração porque me vejo como um colecionador de mundos." Alcântara já lançou 41 livros temáticos e ganhou mais de 50 prêmios nacionais e internacionais.
O novo livro reúne 81 imagens de um total de 3 mil, resultantes, por sua vez, de 15 viagens que Alcântara fez pelo Brasil. São Joaquim (SC), Amazônia, São Paulo, Belém e diversos rincões de difícil acesso foram visitados pelo fotógrafo. "As pessoas têm medo da temática, ou de mudá-la. Eu não tenho medo de nada", diz, resoluto e pausadamente.
No belíssimo texto de apresentação, escrito pelo fotojornalista e crítico Eder Chiodetto responsável por selecionar as fotos que entrariam no livro , há a sugestão da seguinte ideia: o cenário sugerido pela foto só se completa na imaginação e no repertório do leitor. Alcântara assina embaixo. "A fotografia é um signo livre, aberto à compreensão de toda a família humana", diz o fotógrafo-poeta.
Talvez por isso se demore mais em uma página que traz o andar obediente de um gado, que segue para a ponta da lâmina. Ou em outra, que revela uma tempestade daquelas se armando sobre uma barca isolada. Há também a foto densa de um trabalhador pronto para a lida na caldeira. E a indiazinha que troca olhares com um bicho-preguiça, à vontade em seu ombro.
"Fotografar é buscar a beleza em seu sentido proustiano. A beleza da verdade, de Deus, do divino, do tao. Quando estou com minha câmera, todo o meu ser está lá. É quase como uma experimentação mística. É um prazer indefinível, não só o ato de apertar um botão", diz Alcântara.
O fotógrafo é também um caso raro no Brasil. Ao longo de mais de quatro décadas, publica sua arte sem recorrer à fotografia publicitária. O trabalho autoral, nesse caso, venceu o comercial.
"Para enfrentar tudo isso tive que me superar, que fazer uma espécie de voto de pobreza até ir me transformando em um saco mais vazio, desejando menos. A partir do momento que fiz uma escolha com o coração, comecei a viajar incansavelmente. Só é possível superar esses preconceitos quando você tem uma certeza cega que tem que ser todo em todo ato que faz", diz Alcântara.
O novo livro será lançado junto com a reedição revista e ampliada do já clássico TerraBrasil, de 1988, o livro de fotografias mais vendido no país são 82 mil exemplares em 11 edições.
Serviço: Araquém Alcântara: Fotografias. TerraBrasil, 196 págs., R$ 120.






