
São três da tarde em um dia meio nublado no Rio de Janeiro. À beira do calçadão de Ipanema, uma equipe de gravação e uma turma agitada de figurantes chamam a atenção de quem passa pela esquina da avenida Vieira Souto e da rua Garcia DÁvila. É ali que, como vem fazendo há seis meses, Estevão Ciavatta dirige as cenas de Preamar. A série ambientada na Zona Sul carioca é o primeiro projeto longo de ficção de sua produtora, a Pindorama, e estreia no segundo semestre do ano que vem na HBO. Apesar das nuvens, o trabalho segue firme: é hora de gravar os momentos finais do último dos 13 episódios da atração, protagonizada pelo ator Leonardo Franco.
A trama, explica Estevão, entre uma cena e outra, mostra o caráter democrático das areias do Rio: a mistura de classes sociais dá o tom da série, criada pelo próprio diretor, pela roteirista Patricia Andrade e por William Vorhees, ex-atleta e local da área, cheio de propriedade sobre as sutilezas das relações sob o sol de Ipanema.
"Era um desafio fazer uma história passada na praia e que tivesse essa mistura que esse lugar tem, de classes, idades e cores, e que é algo que faz parte da minha história na tevê. Nesse trabalho, consegui essa junção entre ricos e pobres. Revelamos o comércio da praia e vamos além dessa visão da Zona Sul burguesa, de meninas bonitas e surfistas", acredita o diretor-geral.
Trama
A "junção entre ricos e pobres" sobre a qual Estevão fala é visível na história de Velasco (Leonardo Franco), um empresário do mercado financeiro que vê seu mundo desmoronar na crise econômica de 2008. Depois de perder tudo e cair em depressão, o outrora homem de negócios volta seu olhar para a família e, da janela de seu apartamento na Vieira Souto, o único bem que lhe restou, percebe que as areias de Ipanema também são um grande negócio. É o ponto de partida para uma saga que, para Leonardo, é uma busca pela redenção, em vários aspectos da vida do personagem.
"A série tem um lado humano. Quando Velasco quebra, ele tenta recuperar sua carreira. É aí que aparece um Rio que nem ele conhece: o do comércio da praia, que movimenta bilhões de reais, do algodão doce às prostitutas. No aspecto financeiro e familiar, ele procura a sua salvação", explica Leonardo, que fez laboratório na comunidade pacificada do Pavão-Pavãozinho, na Zona Sul do Rio. "Começamos a gravar em junho e estava me preparando desde março. Minha trajetória é mais teatral, então, entro nas séries com o pé direito e de forma oportuna."
Num primeiro momento, conta o ator, Velasco tenta ludibriar a família e diz que está em um ano sabático. No entanto, seus pedidos para que os gastos da casa sejam reduzidos levam à descoberta da verdade. É aí que o ex-empresário conhece Xerife, vivido por Roberto Bonfim. Mandachuva da praia, é ele quem orienta Velasco, que compra um ponto na areia, instala uma barraca (sem colocar o seu nome nela, para não se expor) e passa a ter uma outra vida que inclui, ainda, uma aventura extraconjugal com Paula, vivida por Karen Junqueira.
"Depois de entrar em depressão, ele percebe que seu casamento está deteriorado e que sua mulher, Maria Izabel (Paloma Riani), entrou numa de ser dama da sociedade. Seu filho, Hugo (Hugo Bonemer), está traficando drogas e sua filha, Manu (Jessika Alves), está perdida, naquela fase de iniciação sexual", adianta Leonardo.
Para dar mais veracidade à série, Estevão diz que criou uma "praia de época" para a atração, ambientada antes do Choque de Ordem, operação da prefeitura que padronizou a orla carioca. "Para ter essa visão, teríamos que mostrar alguém que vivesse lá: ou um mendigo, ou moradores da Vieira Souto. E aí acabamos inventando essa história de uma família rica, de frente para o mar. Recriamos, então, um cenário que remete ao ano de 2008, pré-Choque de Ordem da prefeitura do Rio, com quiosques antigos e barracas mais coloridas", explica o diretor, que também faz uma participação como ator.



