
Nascida em uma família de grandes nomes do teatro brasileiro, a atriz Fernanda Torres cresceu respirando dramaturgia. Adulta, conheceu a filosofia de trabalho do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone e o conceito de performance dos Dzi Croquetes. Depois, se lançou na profissão dos pais. Foi esse ambiente criativo, onde tomou contato com personagens fictícios e reais, que forneceu noções técnicas e inspiração para a filha de Fernanda Montenegro e Fernando Torres (1927-2008) escrever Fim (Companhia das Letras), sua estreia no romance. "Sou de uma geração posterior à do Asdrúbal, fundamentada na criação coletiva, no improviso. Acho que o fato de ter sido criada na coxia de teatros e a experiência do trabalho coletivo, no qual todos fazem tudo, inclusive criar seus personagens, ajudaram na hora de escrever o livro", lembra Fernanda, que vinha exercitando a escrita como cronista do jornal Folha de S.Paulo e da revista Veja Rio e em colaborações para a revista piauí, antes de se aventurar na ficção. "Grande parte das obras literárias é fruto de viagens interiores, da imaginação de seus autores. E nisso o treino como atriz ajuda muito."
Trama
Fim é estruturado em torno das histórias de amigos cariocas que, já no fim de suas vidas, rememoram os momentos mais marcantes de suas existências. Álvaro, que abre o livro, é um solitário atormentado pela velhice. Ciro é o eterno conquistador, abatido por um câncer. Sílvio não consegue largar o vício em drogas e sexo nem na velhice. Ribeiro é um sujeito atlético, rato de praia, que apelou à medicina para ganhar sobrevida sexual. E há ainda Neto, o careta da turma, que nunca cultivou vícios, incapaz de trair a mulher ou as amizades. Os cinco, já na casa dos 70, 80 anos, são representantes da fauna de Copacabana, melancólicos e resignados sobreviventes de uma linhagem que viu frustrada parte de suas aspirações.
Aos 48 anos, Fernanda usa tipos da geração de seus pais para falar de sentimentos e aflições ligadas à sua. "Estou com a idade que meus pais tinham quando eu era nova. As pessoas daquela época experimentaram novas fronteiras, participando da revolução de costumes. Hoje, sou assaltada pela noção de morte, estou no auge da potência e ciente de minha finitude. Então, é como se estivesse vivendo os questionamentos daquela geração através do livro", explica a atriz, mãe de Antônio (5 anos) e Joaquim (13), fruto de seu casamento com o diretor Andrucha Waddington. "Sinto que sou uma pessoa do século passado. As novas tecnologias não me interessam muito, são todas meio Tamagotchi, ou você as alimenta, ou morrem. Não tenho tempo para isso."




