
A esta altura, até o folião mais apaixonado anda implorando para ouvir alguma coisa além de samba e marchinha. Que dirá quem nem gosta tanto assim da coisa... Foi pensando nessa galera que, em 2003, um grupo de produtores de Cuiabá inventou de fazer um festival de rock, de baixo custo, no meio do carnaval. Chamaram seis bandas locais e batizaram o evento de Grito Rock. Teve público, e o festival voltou no ano seguinte, com o reforço de bandas vizinhas. No boca a boca, outras cidades decidiram seguir o exemplo. Resultado: o Grito Rock virou o festival integrado mais disseminado pelo país. O calendário também se espalhou. Este ano, teve cidade "gritando" já no fim de janeiro. Outras deixaram para o fim do mês. O Grito Rock RJ, por exemplo, vai rolar esta semana, com shows em Niterói e no Circo Voador.
De Boa Vista a Pelotas, 80 cidades brasileiras fizeram ou estão fazendo seu próprio grito este ano. São 600 bandas tocando por aí. De rock, principalmente. Mas não só. Como nasceu como alternativa ao som dos tamborins, o festival sempre quis oferecer cardápio variado num período de programação quase monotemática. E agora, após ganhar o Brasil, o Grito Rock começa a se internacionalizar. Cidades hermanas - como Buenos Aires e Córdoba, na Argentina; Montevidéu, no Uruguai; e Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia - também estão sediando versões do festival.
O Rio aderiu depois que Jô Rocha, produtora de bandas independentes, teve um cliente (o grupo TOATOA) escalado para tocar em Cuiabá. "Adorei a ideia, vi que várias cidades estavam fazendo isso, e nada do Rio. Então, resolvi arriscar", conta.
Em 2007, Jô organizou o primeiro Grito Rock, com dez bandas em dois dias, na Barra. Este ano, com o crescimento da folia, ficou difícil achar lugar no carnaval. Por isso, o Grito RJ rola um pouco mais tarde: quinta, em Niterói, e sexta e sábado, no Rio. Como acontece em todo o país, o mix de bandas é eclético. Tem atração consagrada: a bigband brasiliense Móveis Coloniais de Acaju, que acaba de gravar um DVD para lançar este semestre. Tem atração estreante: o primeiro show do projeto 11:11, reunião de artistas de várias nacionalidades, como o baixista Tchello (Detonautas). E tem atração hors-concours: a banda Velhas Virgens, com 23 anos de estrada, que vem de São Paulo apresentar seu nono CD, "Ninguém beija como as lésbicas".
"É uma ópera-rock meio trash. Mas mais importante do que contrapor rock e samba é cotrapor produção independente e mainstream", diz o vocalista Paulão, já em casa. "A estética da banda, que é bebedeira, mulherada e boemia, combina com o Rio."
Algumas bandas que tocam no Grito Rock foram selecionadas pela internet. O festival foi o primeiro evento a fazer uso do Toque no Brasil, um site que faz a ponte entre artistas e produtores independentes. Funciona como uma rede social: de um lado, a banda se apresenta e diz onde gostaria de tocar e em que condições. Do outro, o produtor se apresenta e diz que tipo de banda procura e o que tem a oferecer. E, assim, gente que dificilmente se conheceria - de Boa Vista a Pelotas - pode trocar informações, agitar turnês, fazer a produção cultural circular. Artistas encontram palcos; palcos encontram artistas.
O site foi lançado em janeiro deste ano pelo Circuito Fora do Eixo, rede de produtores culturais independentes de várias cidades do país. Um dos parceiros da ideia é a Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin), que reúne 40 eventos do gênero, como o Abril Pro Rock, o Porão do Rock e o Goiânia Noise. Só nos primeiros dias, o Toque no Brasil recebeu mais de 500 inscrições. Aos poucos, espera-se, esse cadastro virtual permitirá, também, mapear a produção cultural do país. E melhorar seus rumos. Quem participa também pode fazer comentários depois, dizendo o que funcionou bem ou não.



