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O Espelho, do Opovoempé: razão e memória afetiva | Annelize Tozetto/Divulgação
O Espelho, do Opovoempé: razão e memória afetiva| Foto: Annelize Tozetto/Divulgação

Frustrações

Homem Vertente e monólogo de Nanini fizeram o público torcer o nariz

Helena Carnieri

Um festival com centenas de atrações obviamente não terá somente qualidades. Mas é uma pena que justo o espetáculo de estreia tenha sofrido com adiamento e questões de segurança. Para a abertura do Festival de Curitiba, sempre é escolhido um trabalho muito visual, com música e cena brilhantes (como foram, em anos anteriores, Los Pajaros Muertos e Sua Incelença, Ricardo III).

Homem Vertente, show com canos de água e acrobacias, seria assim também, mas a coprodução do festival com o grupo argentino Ojalá padeceu com vários problemas.

A primeira apresentação, dia 26 de março, foi reduzida de 50 para 12 minutos – uma forma de garantir a presença dos convidados que haviam comprado ingresso para sessões posteriores.

O problema é que as sessões seguintes, nos dias 30 e 31 de março e 4 de abril, foram transferidas. O show estrearia na noite de ontem, às 21 horas.

Para completar, um problema com o motor que sustentaria os atores inviabilizou os números aéreos, motivo de desistência para alguns espectadores. "Essa era a parte que eu mais queria ver. Não compensa ir", acredita a dentista Carolina Garcia, de 33 anos. Quem desejar pode pedir o dinheiro de volta nas bilheterias ou trocar o ingresso por entradas para outras duas peças da Mostra 2013.

Sarcasmo

Uma segunda decepção, para boa parte do público, foi o monólogo de Marco Nanini, A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe para Pedir um Aumento. Primeira peça do festival a ter ingressos esgotados, o espetáculo com texto calcado na repetição e no humor sarcástico fez alguns deixarem o Teatro Marista no meio da peça, sem cerimônias.

Por fim, outra frustração aconteceu na Rua XV: intimidados pela presença da polícia, integrantes do grupo Erro deixaram de tirar a lingerie, conforme pedia o script, ao final de Hasard – para irritação do público.

  • Marco Nanini: campeão de vendas desagradou a parte do público

Qualquer balanço que se faça do Festival de Curitiba será sempre parcial em razão da absoluta impossibilidade de se dar conta de um universo de 400 espetáculos em duas semanas. Tal parcialidade, contudo, já pode ser vista como o mérito maior deste ano. Explico: a programação da Mostra 2013 e do Fringe, como de costume, trouxe uma cartela vasta de produções de qualidades variáveis. Porém, a quem se interessa por um teatro que repense e amplie a experiência do estar no mundo, investigando linguagens, esta 22.ª edição permitiu acompanhar um recorte instigante como há muito não se via.

Após anos de atrações internacionais medianas, o público foi arrebatado pela virtuose e potência da performance da sul-coreana JaRam Lee em Pansori Brecht. Pôde também tomar contato com os diferentes caminhos seguidos por alguns dos encenadores mais conceituados do teatro brasileiro contemporâneo, pelo modo como conciliam riscos e resultados cênicos, como fez Enrique Diaz no processo de Cine Monstro 1.0.

Maria Thaís proporcionou uma cuidadosa experiência de alteridade em Recusa, rejeitando a aculturação ao retratar mitos indígenas, num teatro fortemente imagético e beneficiado pelas atuações de Antonio Salvador e Eduardo Okamoto em pleno domínio de voz e gestualidade. Roberto Alvim forçou ainda mais os limites já radicais de sua proposta estética, fazendo de Haikai um objeto estranho, em que a linguagem se torna irreconhecível e a fruição passa pelo inconsciente.

À frente de Esta Criança, Marcio Abreu mostrou-se um excelente diagramador da cena ao conceber a espacialização do espetáculo, avivando a experiência da presença compartilhada entre atores e espectadores, num trabalho conjunto com a luz de Nadja Naira e o cenário de Fernando Marés. A aproximação entre Renata Sorrah e a Companhia Brasileira se efetivou num encontro de diferenças agregador.

Reconhecimento

Ainda na Mostra 2013, na qual Marco Nanini se ateve a um monólogo pouco inventivo (A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe...), o grupo Armazém deixou a sensação de mais do mesmo e Gonzagão – A Lenda atraiu o foco para o musical genuinamente brasileiro, viu-se bons trabalhos de grupos e artistas ainda em processo de reconhecimento. A maior descoberta foi Opovoempé – já respeitado em São Paulo, mas inédito em grande parte do país.

Visto por poucos, A Festa é um dos melhores espetáculos do Fringe: uma elaboração sofisticada sobre a percepção do tempo, concretizada em jogos cênicos simples que tiram o público de um lugar de passividade. O Espelho, da Mostra 2013, prossegue com a investigação sobre o tempo e a relação com o espectador, reafirmando a habilidade do Opovoempé em mobilizar o público pela razão e pela memória afetiva.

Mesmo num espetáculo irregular como Maravilhoso, o jovem carioca Diogo Liberano, de 25 anos, afirmou a força poética de sua escrita para a cena. No Fringe, os pernambucanos do Magiluth fizeram miséria com Viúva, Porém Honesta, numa versão em alta voltagem, que atinge a carne da obra de Nelson Rodrigues pela falta de censura com que aborda o texto, o sexo, o escracho.

Dentre as curitibanas, destaque para Circo Negro, da CiaSenhas, cuja ousadia do tom cínico e do modo como também leva o escracho a sério causou recepções controversas. E para o jovem diretor Don Correa, pela orquestração sensível de luz, som, ritmos e sensações no monólogo em inglês Zero. Assistente de direção de Alvim em Haikai, ele só tem a crescer libertando-se mais da sombra estética do mestre rumo à construção de uma obra particular.

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