
Conhecendo os filmes de Wes Anderson, ao ver O Fantástico Senhor Raposo, a primeira coisa que você pode pensar é: "demorou". A técnica de stop-motion que o diretor usa pela primeira vez, com bonecos no lugar de pessoas, é perfeita para o estilo que ele construiu em Os Excêntricos Tenenbaums, A Vida Marinha com Steve Zissou e Viagem a Darjeeling.
Raposo passou discretamente pelos cinemas em Curitiba, veio apenas uma cópia legendada para o Cine Cult do Cinemark, com uma sessão diária num horário difícil, às 14 horas e sai agora em DVD. O filme é uma adaptação do livro homônimo de Roald Dahl (1916- 1990), publicado no Brasil pela WMF Martins Fontes, sobre uma trinca de fazendeiros que planeja se vingar de uma raposa espertalhona que vive roubando comida e bebida de suas propriedades.
Os três preparam uma cilada, mobilizam todos os empregados das fazendas, arranjam escavadeiras e montam guarda no buraco do Raposo, que se vê numa encrenca sem tamanho. Para complicar, ele havia prometido à mulher que não viveria mais de roubos, arranjaria um trabalho e levaria uma vida mais tranquila, ao lado da família.
Mas a questão aqui é a natureza da raposa. Mesmo sabendo dos riscos que a prática dos roubos envolve, o instinto do protagonista o obriga a agir dessa forma. A recaída detona a ação do filme: encurralados pelos fazendeiros, as raposas não têm o que comer e, se saírem do buraco, serão mortas.
Outros habitantes do subterrâneo surgem na história são famílias de toupeiras e coelhos e ficam furiosas porque também estão presas por causa do Raposo. Não demora muito e ele tem uma ideia. Contando com a memória e com a sorte, procura cavar um túnel que leve justamente às fazendas dos três mal-humorados, chamados Bunco, Bino e Boque, esvaziadas porque todo mundo está montando guarda fora da toca.
Wes Anderson consegue imprimir um ritmo contagiante ao filme. Uma sequência simbólica mostra uma perseguição ao som de "Street Fighting Man", da banda Rolling Stones.
Rodar um filme sem atores de carne e osso casa com o estilo do diretor porque seus personagens, com frequência, não parecem humanos. Estão mais para figuras literárias. Na verdade, a estrutura de seus filmes segue um pouco a lógica e o ritmo de um livro um exemplo é o fato de organizar a história com capítulos cujos nomes aparecem escritos na tela. Além disso, Anderson é um cineasta do tipo que se envolve com os detalhes mais triviais ele chegou a desenhar modelos de tênis e agasalhos Adidas para A Vida Marinha com Steve Zissou.
O Fantástico Senhor Raposo é um filme que consegue conversar com crianças e adultos. O público do segundo grupo vai gostar de saber que, na versão original, George Clooney e Meryl Streep dublam o casal de raposas. GGGG



