
A fachada com grandes letreiros e cartazes de filmes clássicos como ...E o Vento Levou , uma cópia fiel de um cinema norte-americano da década de 40, já é um indício de que ali dentro, na Cinevídeo1, há mais do que a mera locação de filmes. Aberta por Luiz Renato Ribas em 1980, a locadora mais antiga do país em atividade foi pensada de tal modo que, mesmo em tempos de rápidas mudanças tecnológicas, nunca deixará de atrair amantes do cinema.
Enquanto outras locadoras venderam pouco a pouco seus acervos em VHS, renovando as estantes com DVDs, Ribas mantém bem conservadas, sob a guarda de um "fiel depositário", o amigo Clayton Foggiato, cerca de 10 mil fitas em VHS. Outras 1.930, ainda inéditas em novos formatos, fazem parte dos chamados "filmes raríssimos", que a locadora empresta gratuitamente para professores, estudantes e outros pesquisadores.
A locadora parou de disponibilizar as produções em VHS aos clientes em geral para combater problemas. "Algumas pessoas não devolviam. Outras, para ficar com o filme, trocavam a bobina por outra."
Agora, quando um pesquisador solicita um filme, compromete-se a devolvê-lo por escrito. Assim que são lançadas em DVD, as fitas se somam ao grande acervo em VHS sob os cuidados de Foggiato. "São uma espécie de matriz caso o DVD desapareça do mercado", diz Ribas.
O consultor de filmes Éden Pereira, há dez anos trabalhando na locadora, cita inúmeras preciosidades disponíveis entre as mais de mil fitas. Há, por exemplo, Gaby: Uma História de Amor (1987), dirigido por Luis Mandoki, sobre Gabriela Brimmer, uma tetraplégica que se tornou uma escritora reconhecida, e o brasileiro Os Fuzis (1964), Urso de Prata de melhor direção para Ruy Guerra no Festival de Berlim.
Filmes fora do mercado por questões judiciais como, por exemplo, Amor, Estranho Amor (1982), produção de Walter Hugo Khouri, em que a personagem vivida por Xuxa seduz um garoto de 12 anos, ficam guardados na casa de Ribas. "Pertence ao meu acervo particular", conta. Cautela necessária, já que a apresentadora mandou recolher todas as fitas originais de locadoras e lojas do país.
Memória preservada
Imperdível também é visitar o andar de cima da locadora, que guarda um acervo de mais de 5 mil títulos do projeto Memória Paranaense. Há centenas de depoimentos de personalidades do estado, do roqueiro Ivo Rodrigues ao urbanista Jaime Lerner. Os próximos a sentar na cadeira do pequeno estúdio, também no segundo andar, para falar de seus feitos são o reitor da Universidade Positivo Oriovisto Guimarães e o ex-governador Jaime Canet Jr. Mas também há jogos de futebol, peças teatrais e filmes que vão de Pátria Redimida (1930), de João Baptista Groff, a Estômago (2007), de Marcos Jorge, ele próprio um ex-funcionário da loja. "Ele trabalhou aqui como office boy em 1973", conta Ribas.
No andar de baixo da locadora, o auditório com 25 cadeiras de cinema já não exibe clássicos gratuitos diariamente, como fazia até o ano passado, por reclamação do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad). "Exibimos filmes vencedores de quase todos os principais festivais de cinema", conta Éden Pereira.
Mas ele ainda discute filmes com o público nas sessões do Cine Contramão, iniciativa do professor de cinema Tom Lisboa que, desde 2006, exibe filmes de arte gratuitamente dois sábados por mês.
"O Tom gosta de começar o ano sempre com o brasileiro O Bandido da Luz Vermelha [de 1967], de Rogério Sganzerla", conta Pereira, adiantando qual será o programa do próximo dia 15, às 19 horas.
Serviço:
Cinevídeo1 (R. Padre Anchieta, 458 Mercês), (41) 3223-4343. Site: www.cinevideo1.com.br



